terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Capa irada do dia: Oracles

A Itália é um lugar estranho quando se pensa em heavy metal. A primeira imagem que vem na cabeça é daquelas bandas épicas de true metal que surgiram na esteira do sucesso do Rhapsody, mas o país das macarronadas tem uns bons segredos guardados em outros gêneros de metal e música extrema (um deles é o Ephel Duath, banda dessas únicas, sobre a qual preciso escrever com mais calma um dia).

E é lá da botinha da Europa que vem a banda do dia: Fleshgod Apocalypse, que eu nunca tinha ouvido, mas, pô, dá um desconto vai, o debú dos caras nem saiu ainda.

A capa do disco, entitulado Oracles, é devidamente apocalíptica, com os anjos ladeando uma escada giga em direção a um céu não lá muito amigável. Uma imagem bem emblemática.

Mas, confesso, esse nem foi o verdadeiro motivo pra eu ter escrito esse post. O fato é que a banda pretende ser uma espécie de mistura entre death metal e música clássica. Os caras citam influências como Cannibal Corpse, Suffocation, Bach e Beethoven. Tirado do myspace dos caras (onde também dá pra ouvir umas amostras de músicas), a descrição do álbum:

“SIN-PHONY n. 1 IS BORN! Fierce, anti-sophistic sermons, sharp string laments, unmerciful skins shredding and refined orchestral interludes, in a unique opera for the celebration of ratio and positivist thought, honouring the fathers of classical music”.

Porra, eu não posso deixar isso passar. Esse tipo de coisa é audição obrigatória pros nerds do metal como eu. Ainda mais porque os caras tocam death metal vestidos de paletó e gravatinha borboleta!

O desafio da banda é basicamente conseguir sobrepor a pegadinha musical (que vai sempre ser a primeira coisa a atrair novos ouvintes) com boas composições e evitar as repetições e armadilhas desse tipo de ‘fórmula’. Pelo menos os samples do myspace evidenciam que os caras estão bem mais pra um death metal técnico e alucinado do que pro clássico, o que já é um primeiro bom sinal. O outro é que o som deles nada tem a ver com Luca Sucrilho e cia...

Oracles sai em março de 2009.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Judas ouviu minhas preces...

O Judas Priest é uma daquelas bandas clássicas, imortais do metal; daquelas que, quando você fica sabendo que vai rolar um show na sua terra, não dá pra conter aquela euforia típica que só os bons shows que heavy metal podem causar. Na estrada para divulgar o bacana Nostradamus, primeiro álbum conceitual dos caras (depois de mais de 30 anos de carreira!), as notícias dos primeiros shows eram pra lá de promissoras, com um setlist recheado de músicas improváveis e fodaças que você simplesmente não pode sequer imaginar de perder ao vivo na sua cidade. Assim, qualquer pessoa com mínima noção metálica se descambou até a Barra da Tijuca para comprar seu ingresso antecipadamente.

Uma das coisas mais iradas desses shows de bandas das antigas e ultraclássicas é chegar no local da apresentação e ver aquela mistura de muleques prestes a ser iniciados em shows de metal ao lado de tiozões saindo do trabalho e vovôs metal motoqueiros, todo mundo na ansiosa expectativa de ver a mesma banda. E foi o que se viu no Citibank Hall nesse feliz dia 14 de novembro, com a praça de alimentação sendo lentamente tomada por nerds de camisa preta de todas as idades. Eu fiz minha parte e sentei por lá, acompanhado do meu irmão mais novo, pra tomar umas cervejas e traçar a já clássica promoção de seis esfirras bate-entope por cinco reais e uns trocados (pena que eu sempre me esqueço o nome do lugar que vende a merda da esfirra, mas tudo bem).

Já devidamente estufados, entramos na casa, até porque de uns tempos pra cá, se tornou um perigo entrar em shows atrasado. Ironicamente, eu nem estava particularmente empolgado pra ver o Judas nesse momento. Talvez pela devastação do Mayhem umas poucas semanas antes, ou por já ter visto a banda inglesa no palco duas vezes (uma com o Ripper Owens e uma com o carecão Rob Halford já de volta), mas a verdade é que eu tava ali mais porque, porra, não se perde um show desses. Nunca. É dever cívico, como disse um amigo meu. E, além do mais, como eu pude mais uma vez testemunhar, o Judas Priest é uma banda ultramegaokfodaça ao vivo. Daquelas que você sempre sai do show achando que ela é ainda mais foda do que achava antes.
O grupo inglês subiu pontualmente ao palco, com a intro Dawn of creation começando até antes das dez horas da noite marcadas para o início. E depois dá-lhe de Prophecy, primeira canção do Nostradamus, com o Halford caracterizado de profeta e mostrando sua tradicional falta de mobilidade, compensada pela voz absolutamente perfeita. Tudo bem, o cara não faz tudo igual ao CD, dá umas apeladas de vez em quando, mas, porra, ele é bom para caralho. Além de ter uma das vozes mais deliciosamente metal de todos os tempos, é daqueles poucos vocalistas que consegue variar tanto entre melódicos e rasgados e agressivos que você pode mesmo ouvir ele cantando tudo que é sub-gênero de metal tranquilamente.

Só desse iniciozinho, já dava pra ver também como a banda como um todo é boa no palco. Os caras fazerem a Prophecy ao vivo ficar mais empolgante do que no CD nem é assim tão surpreendente, mas, ajudada pelo ótimo som e a produção elaborada (sim, o Judas é das poucas bandas que traz o palco completo – ou quase – pros shows no Brasil) eles já definiram o tom da noite, em que cada música que começava e você pensava ‘ah, essa aí é meio fraquina’, acabava com você agitando e cantando que nem um enlouquecido, pensando pra si mesmo como Judas Priest é simples e fodamente metal acima de todas as outras coisas do universo.

O show continuou com a eterna Metal gods, em que até as paredes do Citibank Hall entoaram o coro do refrão, colocando a banda no seu devido status metálico. Daí pra frente, começou a destruição de verdade, em que os caras metiam músicas improváveis (destaque para Eat me alive e Rock hard ride free, ambas do Defenders of the faith e absolutamente surpreendentes ao vivo) e alguns daqueles clássicos imortais que você já espera ver de antemão. É verdade que faltaram muitos desses últimos, como a balada A touch of evil e especialmente a dobradinha Victim of changes e The ripper (o que deve ter sido particularmente frustrante para quem ainda era virgem de Judas até esse dia), mas o que os caras colocaram no lugar dessas não foi nada mau. Pelo contrário.

Por exemplo, logo no início mandaram uma daquelas impensáveis, mas nem por isso menos animais: Between the hammer and the anvil, um verdadeiro delírio apoteótico para os fãs do perfeito Painkiller. Mais pra frente, na sequência que foi muito provavelmente o orgasmo metálico supremo de 2008, o Rob Halford puxou aquele famoso ‘Breaking the what?!?!’, executando a mais-que-clássica Breaking the law, em que o careca simplesmente não precisava cantar, tamanha a empolgação do público presente... e na seqüência, aquela hora que nenhuma preparação psicológica seria suficiente, os filhos da puta tocaram Hell patrol.

Porra, eles tocaram Hell patrol! E eu tava lá!

Sério, poderia parar de escrever por aqui; eu poderia até ter ido embora do show nessa hora, porque a noite já estava incrustada na minha história, certamente como o melhor evento musical de 2008. Mas, se vinha mais pela frente, porque abrir mão disso? E veio mais e, surpreendentemente, nada soou como anti-clímax, porque a banda manteve o nível de empolgação constante até o fim.

A atuação dos caras no palco não mudou em nada desde a última passagem pelo Brasil, com uma exceção: o vocalista carecão finalmente demonstrou alguns sinais de empolgação! Dessa vez, o sujeito se moveu pelo palco, agitou, interagiu com o público. Tudo bem, ele está longe de ser um Bruce Dickinson da vida, mas, porra, ele já ta ficando velho e, ainda assim, provou que não perdeu a paixão pelo metal e pelos palcos. Fora isso, o excelente Scott Travis mais uma vez mostrou porque é o baterista definitivo da banda, o sempre discreto Ian Hill não apareceu muito como sempre e a lendária dupla de guitarra Glenn Tipton e K. K. Downing fez aquelas coreografiazinhas clássicas a la Kiss, enquanto levavam alguns dos riffs mais fodas da história do heavy metal nas seis cordas. Tudo no seu devido lugar.

O momento mais performático da noite foi com a quase-doom Death, do novo CD, mais uma vez com o frontman caracterizado e o cenário funcionando espetacularmente bem. Por sinal, se houve algo a se reclamar do set foi a péssima seleção das músicas recentes da banda: do Angel of retribution, mandaram só a balada meio chatinha Angel (que, apesar disso, serve como bela demonstração do poder vocal do Rob Halford) e, inexplicavelmente, não tocaram a faixa-título do Nostradamus, o mais próximo de um novo clássico que os caras têm no último disco. Por outro lado, alguns outros clássicos inesperados alegraram os veteranos na platéia, como Dissident aggressor e Sinner, outro acontecimento absolutamente genial da noite.

Mais para o fim, o Judas guardou aqueles momentos que todo mundo já espera, mas que nem por isso são menos fodas. Depois de encerrarem o set normal com a obrigatória Painkiller, fizeram aquela volta clássica com a moto, emendando a empolgantíssima Hell bent for leather, seguida do cover clássico The green manalishi (with the two! pronged! crown!) e depois o quase hit You’ve got another thing coming, pra não deixar os fãs na mão. E o mais impressionante é que esse bis, foda como foi, não passou nem perto dos destaques da noite!

Com a apresentação encerrada, os cinco se retiraram do palco... deixando os presentes em estado de êxtase. Não foi à toa que, no meio show, ou até antes, um Zé anônimo virou pra mim e disse: ‘porra, esse show já é muito mais foda que o de 2005’. Eu não sei nem se foi mais foda (até porque em 2005 rolaram coisas do nível de Exciter e Beyond the realms of death), mas, pelamordedeus, como esses caras mandam bem ao vivo. Um show impecável, em particular pros fãs que conhecem bem o catálogo da banda e que já viram outros shows com aqueles clássicos obrigatórios imortais. Essa noite foi uma daquelas pra você um dia contar história pra alguém, narrando os detalhes e revivendo a experiência de ter estado lá.

Fica agora a (vã) esperança de que Halford e cia. tragam os shows com o Nostradamus na íntegra aqui pro Brasil. Difícil, eu sei... mas não custa nada sonhar com essas coisas (inclusive porque meu sonho impossível anterior de Judas Priest era ver Hell patrol ao vivo). Beleza, eu sei que o disco nem é essa maravilha, mas, depois desse show magnífico, eu iria feliz pracaralho até se fosse uma noite só com as músicas do Ram it down!

Setlist fora de ordem: Sinner, Dissident aggressor, Hell bent for leather, Breaking the law, Metal gods, The hellion/Electric eye, Devil's child, You've got another thing coming, Rock hard ride free, Eat me alive, Painkiller, Hell patrol, Between the hammer and the anvil, Angel, Dawn of creation, Prophecy, Death, The green manalishi (with the two-pronged crown) (Fleetwood Mac).

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Capa (não tão) irada do dia: Evisceration plague

Uma das bandas com a identidade visual mais clássica do metal é, sem dúvida, o Cannibal Corpse. Suas capas de discos grotescas e ultra-violentas são a representação perfeita das letras nojentas e perturbadoras do grupo norte-americano, sempre muito bem boladas e executadas pelo genial desenhista Vince Locke, parceiro da banda desde o debú Eaten back to life.

Infelizmente, o novo CD, Evisceration plague, parece seguir o exemplo de alguns álbuns dos caras, que preferem, digamos, 'criar um clima' pra bizarrice das letras do que realmente mostrar o nível desgraçado que elas atingem.


A capa não é ruim, pelo contrário. É bem executada e constrói um clima tenso, mas está longe de ser o choque visual que se espera da arte de um álbum da banda.

Como compensação, o baixista Alex Webster (um verdadeiro gênio subvalorizado das, no caso, cinco cordas) disse que o artista criou duas imagens, uma mais sugestiva (que aparece na capa) e outra mais direta e agressiva, que estará dentro do encarte do CD. Vai ver é algum tipo de iniciativa contra a pirataria...

...além disso, essa história pode ser um sinal de que o Cannibal quis seguir a tradição dos outros discos cuja capa era, assim, mais sutil. Entre eles, está o genial The bleeding e o último álbum, Kill, que eu não conheço como um todo, mas que tem a absurda The time to kill is now, o que já é um bom sinal.

O tracklist do novo disco também não tem assim nomes de músicas tão brutalmente irados outros do passado da banda, mas pelo menos a singela Carnivorous swarm já dá uma saudosa lembrança da ultraclássica Devoured by vermin.

Evisceration plague sai no dia 3 de fevereiro.