Enfim, o Leo (mané em questão que não sabe o que é a boa música) leu em um blog de um amigo dele elogios rasgados ao Satan e me perguntou onde estavam as minhas considerações sobre a banda, que, segundo o texto, era uma das mais clássicas e obrigatórias do heavy metal. E eu nem conhecia as músicas do quinteto inglês! Bom, depois de um tempo dedicado a ouvir a (pequena) obra deles, aqui estamos! Lá vão minhas considerações...
Fundado em Newcastle no início dos anos 80, o Satan desde sempre foi um quinteto, com duas guitarras, baixo, bateria e vocal. O microfone, também desde sempre, foi o posto mais problemático da banda, já que, ao longo da carreira, apenas o baterista mudou uma vez. O núcleo central era composto pela (excelente) dupla de guitarristas Steve Ramsey e Russ Tippins, além do baixista Graeme English. E o dono definitivo das baquetas acabou sendo Sean Taylor.O primeiro vocalista do grupo foi Trevor Robinson, que gravou o single que lançou o Satan ao mundo. O disquinho contava com Kiss of death no lado A e Heads will roll no B, duas músicas bacanas e que já começavam a mostrar o que eles faziam melhor, com um trabalho de guitarras mais elaborado do que a grande maioria das bandas da NWOBHM, com linhas melódicas interessantes e solos bem acabados. Apesar disso, o single não era nenhuma revelação para a época, ficando bem enquadrado no espectro do metal cru e agitadão. Além disso, os vocais do tal Trevor eram bem genéricos.
Talvez por isso mesmo o rapaz não tenha durado muito na banda e, um pouco mais tarde, os músicos do Satan conseguiram seu maior trunfo no caminho para a fama: a entrada do vocalista Brian Ross, ex-Blitzkrieg. E foi com Ross à frente que o grupo gravou seu grande trabalho, o LP Court in the act.
O disco, um clássico da NWOBHM, revela com clareza os trunfos do Satan dentro da cena inglesa. As guitarras de Ramsey e Tippins estão mais assassinas do que nunca, com duelos épicos de solos, riffs melódicos e técnicos (principalmente para os padrões da época), linhas dobradas memoráveis e tudo mais. Só pela performance em Court in the act, os dois poderiam facilmente ser considerados como uma das duplas de guitarra mais entrosadas do metal tradicional!
Os vocais poderosos, versáteis e carismáticos do Brian Ross, no entanto, figuravam como pilar central do LP. Realmente, a performance do sujeito é magnética, dando às músicas uma força peculiar, ao mesmo tempo em que soava totalmente metal. A questão é que a presença de Ross, que por um lado funcionava como uma dádiva, eclipsava os outros elementos da música do Satan. A produção do disco parece simplesmente se esquecer das guitarras nos momentos em que o cara está cantando, enfraquecendo a base das músicas e tirando a essência da boa NWOBHM, que é o foco nos riffs e na energia acima de tudo. As guitarras de Court in the act soam desanimadas e, em alguns momentos, simplesmente fracas, tirando boa parte do seu poder de fogo.Por isso, me parecem totalmente absurdas as comparações que fazem por aí do debú do Satan com o thrash, já que as guitarras e, acima de tudo, o peso dos riffs, ficam abafados pela produção, que tenta a todo custo jogar os holofotes sobre a voz do Brian Ross. E que deixa soterrado aquele que talvez é o maior tesouro da banda, isto é, o trabalho da dupla de guitarras.
(e nesse sentido, é bem interessante a audição da demo Into the fire, que tem versões mais antigas e cruas de três das músicas de Court in the act, só que cantadas pelo vocalista Ian Swift - que é decididamente bem mais fraco que o Ross - em que as guitarras marcam bem mais presença e peso do que no LP em si)
Por outro lado, a meu ver o disco é um ponto de conexão interessante da NWOBHM com o power metal. Não que o Satan soe particularmente como uma banda de power metal nessa fase, mas o destaque exagerado aos vocais e linhas melódicas acima dos riffs é um elemento em comum importantíssimo. Talvez não tenha sido à toa que os alemães do Blind Guardian tenham escolhido regravar a segunda música do bolachão, a avassaladora Trial by fire.
Apesar de tudo, além da própria Trial by fire, o disco tem vários belos momentos, com destaque especial para a instrumental The ritual, em que a dupla de guitarristas finalmente tem seu espaço adequado para aparecer, e para o épico Alone in the dock, uma dessas músicas que só bandas de NWOBHM poderiam produzir.
Quando o Satan tinha tudo pra ir pra frente e deslanchar, Brian Ross decidiu cair fora e reformular o Blitzkrieg, deixando o grupo mais uma vez sem vocalista. E é aí que a história da banda começa a ficar complicada. Na busca por um substituto, os caras acabaram encontrando um tal Lou Taylor, que tinha montado com o Kevin Heybourne do Angel Witch o projeto Blind Fury. Por algum motivo, os quatro remanescentes do Satan decidiram então se juntar ao cantor sob o nome de Blind Fury mesmo e assim gravaram um único disco, Out of reach (que dizem as más línguas ser mais pro lado comercial e hard rockeiro).Com o fracasso do disco, os caras decidem ressucitar o nome Satan, recrutando mais um novo cantor: dessa feita, o nosso velho e querido Michael Jackson! Cansado das acusações de estar esbranquiçando, Jacko resolve largar tudo e fazer seu gritinhos à frente de uma banda de heavy metal!
(obviamente isso não aconteceu... mas porra, como isso seria a coisa mais foda de todos os tempos! olha o Michael fazendo cara de vocalista de metal! nem vem, ele poderia cantar metal tranquilamente, ele faz até os agudinhos!)Bom, o nome do novo integrante realmente era Michael Jackson, mas não era o nosso bom e velho 'rei do pop'. O fato é que o sujeito era um vocalista decente, e nessa nova fase os caras gravaram um EP (Into the future) e um LP (Suspended sentence), com uma sonoridade agora mais próxima mesmo ao power metal (e com uns quês de thrash). De qualquer jeito, a essa altura o som já não tinha muito (se é que tinha alguma coisa) de NWOBHM, e a banda acabou logo depois.
(cara, eu acabei de me dar conta de porque o Satan deu errado ao contrário de um, digamos, Iron Maiden: as capas de disco dos caras eram feias pracaralho!)Mas não pensem que os rapazes seriam assim tão facilmente convencidos a desistir de alcançar a fama! O quinteto decidiu tentar ainda mais uma vez, fundando o Pariah, que tinha exatamente a mesma formação e, até onde eu sei, um estilo mais ou menos parecido com os últimos trabalhos do Satan.
E se você pensou que o Pariah não deu lá muito certo na vida, acertou! Mas os nossos amigos Steve Ramsey e Graeme English ainda persistiram, fundando o Skyclad, banda de folk metal que deu mais ou menos certo e está na ativa até hoje (e é bem chatinha). Triste fim para dois heróis da NWOBHM!
Esse post é dedicado ao Leo, meu amigo de gosto musical equivocado!

2 comentários:
Hehehe. Eu preferia que o post dedicado a mim fosse o do Todd Rundgren, mas tá valendo!
Um dia esse post do Todd ainda sai, mas a princípio vai ser só do Something/anything. A discografia do cara é muito grande pra uma análise mais aprofundada...
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