terça-feira, 21 de abril de 2009

Vôo 666: picaretagem maideniana clássica

Apesar da longa e bem documentada relação do Iron Maiden com o Brasil, confesso que me surpreendeu bastante o anúncio da primeira sessão de todos os tempos do documentário Flight 666 aqui no Brasil, mais ainda aqui no Rio. A tal première aconteceu no Odeon, cinema classicão e que provavelmente é a sala mais irada da cidade (além de ficar no coração da cinelândia, é o único que toca sino e abre cortina - tipo teatro mesmo - antes de a sessão começar).

Me valendo da minha profissão (afinal de contas, trabalhar em televisão tem que ter alguma vantagem), tentei arrumar ingresso pro evento, que rolaria na tarde do mesmo dia em que a banda tocaria na Apoteose como parte da picaretíssima turnê da coletânea Somewhere back in time. Em vão, porque eu descobri que os ingressos, que custavam 80 reais!, já estavam esgotados e que tava quase impossível de conseguir um. Ok, tive que me contentar só em ver o show e não autografar meu vinil do single da Aces high!

Ok, ok, o show do Iron Maiden foi fodão e isso tudo levou à minha descoberta de que ia rolar uma sessão especial do documentário no mesmo Odeon, à meia noite, organizada pela Moviemobz (empresa que faz exibições de filmes segundo a demanda de usuários pela internet, bem interessante por sinal!). Óbvio que eu rapidamente me programei pra comparecer, até porque não é sempre que você vai conseguir ver um filme sobre metal numa sala de cinema!

(aqui cabe o parêntese de que o filme do Iron Maiden foi dirigido pelo Sam Dunn, mesmo cara que fez o bem legal Metal, a headbanger's journey, que me deu uma alegria inenarrável de poder ter visto em uma exibição do circuito comercial de cinema; depois o sujeito fez o meio caído Global metal, que nunca passou em lugar nenhum, então eu baixei e vi no computador mesmo)

Enfim, consegui ainda arrastar dois dos meus três irmãos pro Odeon e, mesmo com a sessão sendo meia-noite e com os downloads ilegais, foi legal ver que um número razoável de fãs da banda compareceram ao 'evento'. Ok, o cinema tava longe de estar cheio, mas a empolgação/presepice da galera compensava, chegando ao extremo de neguinho ficar tirando foto no meio do filme!

Logo depois que a gente entrou na sala, uma cartela anunciou: 2 minutes to Flight 666. E, claro, começou a tocar 2 minutes to midnight com um clipe de fotos da banda na turnê que levou o grupo ao redor do mundo a bordo do seu avião particular Ed Force One, pilotado por ninguém menos que o vocalista Bruce Dickinson.

Como já tinha sido anunciado e divulgado, o documentário tem como fio condutor a mesma turnê que trouxe a banda ao Rio há pouco mais de um mês, na qual o sexteto inglês tocava apenas músicas clássicas da 'era de ouro' (com a exceção da também clássica, mas mais recente, Fear of the dark). O início do documentário é até interessante por explicar a estrutura da viagem, uma parte técnica mesmo, que é algo meio improvável, mas ainda assim bacana (apesar de isso, no filme, ser usado pra enaltecer a banda como 'desafiadores que fizeram a turnê mais ousada de todos os tempos' ou coisa parecida... ãhã).

O filme começa na Índia, no mesmo show que encerra o já citado Global metal (o recurso também foi usado na 'transição' do Metal, a headbangers journey pro Global metal, sendo que nesse caso o show era do Wacken) e registra a reação dos indianos com a chegada do Iron Maiden e um trecho de uma música do show. Depois, a banda vai pra Austrália... e o filme registra a reação dos australianos com a chegada do Iron Maiden e um trecho de uma música do show.

Ó deus.

Sim, como qualquer mané podia perceber a essa altura, Flight 666 é um filme picaretaço, feito da maneira mais óbvia e retardada possível. A estrutura repetitiva aproxima demais o 'filme' (seria exagero chamá-lo de documentário a essa altura... acho que seria mesmo exagero chamá-lo de filme, mas vamos lá) de um DVD qualquer que registra a turnê de uma banda, um pouco de backstage e as músicas.

Ok, como todo mundo sabe, músicas boas do Iron Maiden são algo foda pracaralho (ainda mais o setlist dessa turnê especificamente), mas o problema é que nem isso está lá do início ao fim. Todas as passagens de shows são cortadas, o que faz com o que a dimensão 'DVD ao vivo' do projeto fique frustrada.

Eu até entenderia os cortes se o resto da duração do negócio fosse usado pra algo interessante, mas o que se vê é uma sucessão de situações típicas de qualquer turnê com os integrantes fazendo uns comentários bem genéricos uns sobre os outros, do tipo 'ah, o Bruce Dickinson é empolgadão', 'o Steve Harris é o dono da banda' e 'o Nicko é completamente maluco'. Coisas que já são do velho conhecimento de qualquer fã da banda que se preze.

Tudo bem, até tem umas passagens engraçadas (a maioria protagonizada pelo Nicko ou pelos roadies da banda), como por exemplo o padre em São Paulo que prega falando sobre as letras do Iron Maiden (o cara tem mais de cem tatuagens da banda e se diz o maior fã dos caras do mundo!) ou o fã boiolinha chorando até não poder mais depois de ter pego uma baqueta no fim do show. Mas, porra, pelamordedeus! A verdade é que ele não se decide entre ser um DVD de show ou um DVD de bastidores e acaba sendo nem uma coisa nem outra. Acaba não sendo porra nenhuma, na verdade. No máximo um DVD bem ruim.

Pra quem (como eu) esperava algum tipo de enfoque histórico sobre a banda, Flight 666 é ainda mais ridiculamente decepcionante. Não tem absolutamente nenhuma menção ao Paul Di'Anno ou ao Blaze Bayley, nenhuma contextualização histórica, nenhuma fotinho antiga da banda, nada! No máximo, umas imagens de TV do primeiro Rock in Rio e olhe lá! Pra uma banda com uma história tão rica e conturbada como o Iron Maiden (coisa que poderia sim render um bom documentário, mesmo que fosse 'careta'), o resultado é ainda mais revoltante. Especialmente se levarmos em conta a natureza de 'retrospectiva histórica' dos próprios shows que tão sendo filmados.

Ficamos então com um pseudo-filme, sei lá, que é, acima de tudo, uma picaretagem fudida, assim como grande parte do material que a banda lança (coletâneas, discos remasterizados, edições especiais etc.). Aliás, a própria turnê que deu origem ao projeto é uma grande picaretagem, então talvez em um nível conceitual bizarro e distorcido talvez o negócio até funcione!

É por essas e outras que a passagem mais marcante de Flight 666 talvez seja uma entrevista de rádio com o Bruce Dickinson (se não me engano nos Estados Unidos), em que o cara pergunta 'a turnê é um resgate da era clássica?' e o vocalista diz enfaticamente, quase puto 'não, nós não queremos viver do passado e fizemos esses shows como um presente pros fãs mais novos que nunca viram a gente tocando as músicas antigas'.

Ãhã. E o metal vai salvar o mundo.

E aí depois o cara pergunta 'e qual é a música que vocês estão mais curtindo tocar nos shows?' e o Bruce 'Ancient mariner'. E entra o vídeo deles tocando Rime of the ancient mariner e você pensa, tudo ao mesmo tempo 'esse filme é uma merda, esses caras são uns picaretas caras-de-pau filhos da puta, mas Iron Maiden clássico é foda pracaralho'.

1 comentários:

Dotto disse...

Não vi e nem verei, mas era se esperar demais que fosse aparecer algo de conturbado num filme lançado pela banda em meio a turnê caça-níquel. Talvez o presidente da Russia tenha gostado.