O black metal, particularmente, parece ser um subgênero particularmente propenso a experiências musicais, em parte porque sua natureza dissonante e produção lo-fi (pelo menos no black metal 'clássico') vão de encontro ao que se faz em muitos estilos musicais em voga nos dias de hoje. O fato é que, partindo do daí, diversas bandas seguiram caminhos improváveis, o que resultou em uma espécie de 'tendência' do 'pós-black' (que não podemos considerar como um estilo ou gênero, já que as bandas são muito diferentes entre si).
Aparentemente, um dos novos caminhos encontrados pelo pós-black é a mistura entre o estilo e sons psicodélicos. A primeira vez em que eu ouvi falar disso foi lendo sobre a banda americana Nachtmystium, que começou a incorporar influências do rock psicodélico a partir do seu terceiro álbum, Instinct: decay. Como eu e o psicodelismo nunca fomos muito chegados (e não é um tipo de rock que eu conheça muito), eu acabei deixando passar a informação, mesmo tendo ficado intrigado pela descrição do som da banda.
Um pouco depois, garimpando notícia pra fazer posts no blog (na época em que eu ainda batia ponto por aqui regularmente), li a notícia de que uma tal banda Oranssi Pazuzu, da Finlândia, tinha disponibilizado todo o seu primeiro disco, com o impronunciável nome Muukalainen puhuu, para audição no seu myspace. Pensei em fazer um post da série de 'uma noite com...', o que obviamente acabou não rolando. Só que, logo que eu ouvi as primeiras músicas do álbum, sabia que tinha que escutar aquilo com mais calma.
(bom, pra começar, o logo da banda é foda pracaralho)O Oranssi Pazuzu é um quinteto finlandês, que descreve seu som como uma mistura de black metal norueguês com a kraut-psicodelia finlandesa. Ok, eu não faço ideia do que diabos seja a kraut-psicodelia finlandesa (afinal, eu sempre achei que o termo 'kraut' só era aplicável a bandas alemãs; é que nem neguinho que chama banda sueca de NWOBHM!), mas, porra, a verdade é que, de algum jeito misterioso, a descrição soa como verdadeira e precisa.
O estilo dos caras tem como base os riffs gélidos e repetitivos do black norueguês original, sempre utilizados de forma repetitiva e hipnótica. O potencial monótono das composições é salvo por duas coisas: a intensidade com que a banda toca o material que, apesar da produção cristalina, soa pesado, agresssivo e contagiante; e o uso dos teclados. O instrumento é tão vital para o som da banda que lembra os tempos em que surgiu o chamado 'black metal sinfônico', apesar de aqui ele ser usado de forma completamente distinta.
Pra entender o clima do CD, nada melhor do que dar uma olhada na capa do disco. A atmosfera criada pelo confronto das guitarras do black e dos teclados alienígenas e da estrutura repetitiva das músicas potencializa a natureza fria e distante do black metal, além de dar ao álbum um ar espacial, cósmico e contemplativo. Ou seja, o que o Oranssi Pazuzu conseguiu já de cara foi forjar um som único e peculiar, algo que muita gente não faz em anos de carreira...Apontar destaques individuais é tarefa árdua, tanto no sentido de performance dos músicos como das faixas, já que a graça do disco nasce justamente da surpresa criada pelo todo. Além disso, é tudo cantado/urrado em finlandês... e o finlandês é uma língua pra lá de escrota. De qualquer jeito, as duas primeiras músicas, Korppi e Danjon nolla, são as mais 'fáceis' e imediatas, apesar de já revelarem claramente a identidade sonora da banda (talvez não seja coincidência serem as duas faixas com os títulos mais curtos), enquanto o resto do disco vai se tornando mais e mais viajante e psicodélico.
De qualquer jeito, não me resta dúvida de que o Oranssi Pazuzu é uma das mais interessantes bandas que eu conheci recentemente, apontando, quem sabe, mais uma tendência pro pós-black metal. Vamos torcer pra que a coisa não acabe gerando uma legião de novas bandas de black metal psicodélico, todas iguais umas as outras.

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