E esse som típico foi tão importante e influente quanto os caminhos abertos pelas bandas citadas ali em cima. O problema é que as bandas que primaram justamente na fase em que eram verdadeiramente NWOBHM acabaram sendo também aquelas que ficaram relegadas de uma mais forma ampla ao esquecimento.
Esse é o caso do Diamond Head. Os caras tiveram certamente a trajetória mais frustrante de toda a cena britânica do início dos anos 80, já que passaram de maior promessa do metal mundial ao esquecimento em, sei lá, três anos? Daquela que talvez foi a maior obra-prima daqueles tempos a não conseguir mais lançar um mísero disco em menos de meia década? Mas, tudo bem, eu tô me antecipando. Senão meu post vai acabar ficando muito curto. E, se tem uma banda que merece um post decentemente escrito e razoavelmente grande nessa série de homenagens à NWOBHM, ela provavelmente é o Diamond Head.
Originalmente um quarteto, o Diamond Head foi fundado na cidade de Stourbridge, Inglaterra, em 1976 por dois garotos colegiais, o guitarrista Brian Tatler e o baterista Duncan Scott. Ainda antes de gravar qualquer material, entraram para a banda o baixista Colin Kimberley e o vocalista Sean Harris, compondo assima formação clássica da banda.
De 1977 a 1980, o Diamond Head escrevia músicas próprias e fazia shows locais. Reza a lenda, segundo Sean Harris, que a banda escreveu mais de 100 músicas (!!!) nesse meio tempo. Entre o material da primeira fase, estavam Shoot out the lights e Helpless (que compunham o primeiro single da banda) e Sweet and innocent e Streets of gold (segundo single). Mesmo com a presença de um dos maiores clássicos da banda (no caso, Helpless), o material desse período não é, de uma forma geral, muito indicativo do som que viria a consagrar os caras, já que ainda era bem mais voltado pro hard rock do que pro metal propriamente dito.Em outubro de 1980, eles finalmente conseguiram gravar seu debu. O 'problema' é que, por falta de estrutura ou grana, o disco teve que ser lançado com uma capa branca, sem nome, indicação das músicas ou mesmo logo da banda. As capas (foram feitas mil cópias dessa versão original) eram autografadas por um ou mais membros da banda, à mão mesmo, na tosquice e cara-de-pau absolutas. O LP não tinha nem nome oficialmente, ficando conhecido ou como 'The white album' ou como Lightning do the nations, título da primeira faixa. O fato é que essa improvisação acabou funcionando a favor da banda, dando uma aura de mistério ao disco, que mais tarde viria a ser um dos clássicos itens de colecionador daqueles tempos.
Claro que nada disso ajudaria muito se a música em si não fosse digna de nota... só que o que o Diamond Head fez no seu debu foi algo fora de série, uma verdadeira revolução no heavy metal. Naqueles tempos, a banda chegou a ser considerada como 'o próximo Led Zeppelin' (nas palavras de um tal Steve Harris), o que evidencia bem o som que os caras faziam. Pra mim, o Diamond Head é um pouco isso mesmo, como o Led Zeppelin se fosse verdadeiramente uma banda de metal. E também se, em vez de meio chato, fosse foda pracaralho.Não há dúvida de que o álbum - e a banda - tinham dois grandes trunfos. Em primeiro lugar, uma habilidade única para compor épicos instantâneos e impecáveis do metal. O talento dos caras como compositores de riffs, melodias vocais, estuturas interessantes e inovadoras, é evidente, gritante. Aliado à mentalidade do 'faça você mesmo' típica do metal daqueles tempos, à produção imperfeita e à garra demonstrada pela banda (tranquilamente inserida dentro do contexto da NWOBHM por essas características), esse talento simplesmente rendeu alguns dos maiores clássicos imediatos do metal. Seja em músicas mais diretas, outras mais comerciais e alguns épicos irrepreensíveis, o fato é que os riffs da banda soavam mais empolgantes e originais do que tudo o que se fazia no metal até então.
O fator número dois pro sucesso da banda é com certeza o carisma absurdo apresentado pelo vocalista Sean Harris. Mais uma vez fazendo a ligação com o Led Zeppelin, o cara tinha uma performance meio metida a sensual, bem a la Robert Plant mesmo, o que fica especialmente em evidência na ultrafoda Sucking my love (a melhor música que o Led Zeppelin não escreveu, com certeza absoluta). O maluco podia ser épico, festeiro, galã, tresloucado, o que você quiser, e era foda. E era metal pracaralho. A voz do cara era um absurdo. Ele tinha nascido pra comandar as legiões metálicas ao redor do mundo.
Isso que eu escrevi aí em cima me lembra uma descrição feita por - quem mais? - Jimmy Page na época do estouro do The Darkness, dizendo que tudo o que uma banda de rock precisa pra ser grande é um guitarrista explosivo e um vocalista que sabe ser sensual, ou coisa parecia. E se isso fosse verdade, ainda mais aliado ao mistério criado pelo disco sem capa e sem nome, o Diamond Head poderia ser na molezinha uma das maiores bandas de todos os tempos.
E, na moral, o debu dos caras é de uma fodeza indescritível. Só de ter Am I evil?, uma das coisas mais perfeitas da história da música, ele já mereceria obrigatoriamente se lembrado. Mas aí você vai acrescentando a demasiadamente genial e já citada Sucking my love, a ultraempolgante Lightning to the nations, a linda The prince, os rockões It's electric e Sweet and innocent... porra, pelamordedeus. O bolachão é uma das maiores obras-primas do metal!Como não poderia deixar de ser, a banda foi proclamada como a salvação do heavy metal aos quatro ventos. Iron Maiden? Pfff... manda esse Paul Di'Anno ficar quieto aí, porra! O negócio agora é Diamond Head!
(Iron Maiden? Led Zeppelin? A verdade é que os caras do Diamond Head queriam mesmo é ser os novos Beatles!)Só que a coisa não aconteceu bem assim.
É difícil saber exatamente onde ficou o erro da banda, se é que ouve erro propriamente dito, mas o fato é que eles passaram por uma série de decisões bizarras que acabaram desvirtuando o caminho em direção à fama certa, sexo, drogas e o título de reis do metal. Como por exemplo deixar a mãe do Sean Harris ser a empresária da banda. Como todo mundo sabe, todas as mães do mundo odeiam o metal e a respeitável senhora, que atendia pelo nome de Linda Harris, recusou um acordo com uma mega gravadora da época, certamente na tentativa de acabar com aquela palhaçada de cabelo grande, roupa de couro e gritinhos de tendência sexual duvidosa na casa dela. Ora, onde já se viu?
(acima, a loirinha Linda Harris convencendo todo mundo de que metal fodástico era coisa do passado... 'a onda agora é hard rock farofa!')O fato é que a banda demorou demais (dois anos, o que era muito praqueles tempos) pra lançar o seu segundo LP. E, para um grupo de dizia ter feito mais de cem músicas em quatro anos, o fato de duas das faixas de Borrowed time (bolacha em questão) serem versões regravadas (e pioradas) de clássicos do debu já funcionavam como um balde de água fria prévio.
Pois bem, apesar da capa totalmente metal!, o tal Borrowed time soa bem menos metálico do que seu antecessor, não só pela produção, mas já a partir das composições mesmo. É nesse sentido que eu não sei muito bem se houve algum erro estratégico, porque o que me parece é que os caras queriam fazer mesmo um som mais comercial ou no mínimo mais hard rock. Claro, talvez eles tenham decidido por isso pra apressar o processo de dominação mundial previsto por todo mundo, até pelo papagaio da vizinha. Mas, sei lá. Talvez um pouco como o Metallica fez anos mais tarde (anote o nome dessa banda aí, ele vai aparecer mais pra frente no post!), o caminho tomado pelo Diamond Head me parece relativamete natural e não uma coisa de vender a alma pelo sucesso. Bom, eu posso estar errado.De qualquer maneira, a banda ainda sabia escrever bons riffs e solos e compor épicos metálicos como poucos (como In the heat of the night, To heaven from hell ou a faixa-título), só que a produção meio maricas põe tudo a perder. Na moral, pra que assinar com uma gravadora e fazer uma produção tosca assim? A gravação do debu, feita de forma independente, era umas mil vezes melhor! Talvez com um som mais poderoso, o disco pudesse ter sido um sucesso maior. Ou pelo menos fazer menos vergonha em comparação ao seu antecessor.
Mas o grande momento de virada (ou seja, de perda do caminho) na história do Diamond Head veio com o terceiro álbum, Canterbury, lançado em 1983. Segundo declarações, os caras já tavam mesmo ficando de saco cheio de metal a essa altura do campeonato, e então resolveram lançar um disco ainda mais comercialzão que Borrowed time. O resultado é um LP execrado por todos os fãs da banda e que não conseguiu (como provavelmente seria a expectativa de todo mundo) atrair um novo público.
O pior é que, mesmo sendo extremamente pop em diversos momentos, Canterbury ainda evidencia como a dupla Harris/Tatler estava bem à frente da grande maioria dos compositores de metal da época em termos de criatividade e ousadia. Tudo bem, os caras decidiram romper de vez com o estilo que viria a selar a genialidade da banda na história do metal uns poucos anos depois, mas fora algumas musiquinhas chinfrins de rádio, o terceiro álbum tem algumas belas faixas (e que poderiam facilmente ser convertidas em grandes clássicos do heavy metal).Melhor ainda, muitas das características da banda são mantidas, como por exemplo a vocação épica/nerd dos caras, que se mantém intacta (afinal, quem lançaria um LP comercialzão com uma música - fodaça - chamada Knight of the swords?!?). O que resulta em uma mistura bizarra, mas não menos interessante, uma espécie de pop/rock épico. É uma pena que a banda tenha pendurado as guitarras logo depois, porque esse é um subgênero musical que eu adoraria acompanhar com atenção.
O que aconteceu depois foi que o novo rumo musical da banda acabou por gerar uma ruptura interna: Harris e Tatler chutaram Kimberley e Scott (que talvez ainda quisessem tocar metal?) e, mesmo chamando outros músicos para o lugar destes, não conseguiram manter a banda na ativa. O Diamond Head ainda gravou uma demo (aparentemente já sem ter nada a ver com metal) antes de encerrar as atividades definitivamente.
Mas nem tão definitivamente assim.
Como visto no meu último post, do outro lado do oceano vinha surgindo uma banda chamada Metallica, que com o passar do tempo se tornou a maior de todas as bandas de metal do mundo. E os caras do Metallica amavam, adoravam, idolatravam o Diamond Head. Eles queriam ser o Diamond Head. Eles fizeram seus maiores clássicos inspirados pelas inovações do Diamond Head. E eles falavam isso toda hora, pra todo mundo.
E eles gravaram músicas do Diamond Head, muitas músicas do Diamond Head. Pra se ter uma ideia, o Lightning to the nations tinha sete faixas. Até hoje, o Metallica gravou oficialmente quatro delas. E pelo menos mais uma em demos e ensaios. Preciso dizer mais alguma coisa?
(e eu não gosto de ficar puxando o Metallica toda hora nos meus posts sobre a NWOBHM, mas nesse caso não tem jeito, se alguma banda deve ao Metallica seu reconhecimento devido, ela é o Diamond Head)
O fato é que o James Hetfield, o Lars Ulrich e até o Dave Mustaine falaram tanto, gravaram tanto e puxaram tanto o saco do Diamond Head que não teve jeito: neguinho teve que prestar atenção. Sinceramente, a essa altura o Sean Harris e o Brian Tatler devem viver razoavelmente bem só de royalties das músicas deles vendidas em CDs do Metallica.
E o interesse renovado também deu à dupla a oportunidade de reativar o Diamond Head, fazer uns showzinhos, lançar uns disquinhos, ganhar uma grana, enfim. Eu nem conheço essa fase moderna dos caras, mas o fato é que, comercialmente, ela nunca deu muito certo. Mais recentemente, a banda voltou à ativa pela 3956ª vez, só que agora sem o Sean Harris, o que me parece um verdadeiro absurdo. Mas tudo bem, o Brian Tatler tem que pagar o colégio das crianças. E, porra, quem sou eu pra falar mal de um cara que escrever alguns dos melhores riffs do metal e tocou alguns dos solos mais animais da NWOBHM?
O foda é que é meio estarrecedor como uma banda com um começo tão explosivo e tão definitivo e tão inquestionávl pôde acabar quase ficando no esquecimento. E mesmo assim não ter ficado no esquecimento total meio por tabela. Tudo bem, o Metallica pegou as ideias do Diamond Head (e de outras bandas da NWOBHM) e transformou elas em uma coisa mais viável, mas porra, não dá pra deixar de pensar que já tava quase tudo lá. Os riffs, as estruturas pseudo-progressivas, o solos. Pelo menos o Metallica reconhece isso, nesse ponto eles nunca foram filhos da puta.E certamente muito melhor do que lamentar o fato de os caras não terem mantido o nível ridiculamente foda do início, é poder ouvir Lightning to the nations quantas vezes for necessário pra constatar que o que o Diamond Head fez foi muito mais do que inspirar outros músicos. Eles provavelmente não foram a banda mais foda da NWOBHM, mas, caralho, como aquele disco é ridiculamente fodaço ao extremo.
Tão foda que já basta pra toda a carreira de uma banda. Quiçá para todo um gênero musical.

1 comentários:
Cara, não sou um profundo conhecedor de metal igual a você, mas sei diferenciar música boa de música ruim. Do metal do comecinho dos 80, o instrumental, melodia e voz do D.Head fica bem acima da média dos outros da época. E nem precisa de uma bateria muito grande e um cara socando a porrada. Parabéns!
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