Entre os muitos casos recentes disso, um que me acha atenção é o do Anthrax. Quando eu comecei a ouvir a banda, eles não pareciam ser do tipo que entraria nessas presepadas idiotas. Até pela postura dos caras em seguirem firme com um som e um vocalista que pouco tinham a ver com aqueles da era clássica, eu tinha a impressão de que os caras simplesmente tavam fazendo aquilo que eles queriam, independente da vontade dos fãs (o Anthrax talvez tenha sido o único grupo de thrash das antigas que não fez uma 'volta às raízes' depois da era pós-thrash).
Só que aí, logo depois de eu viciar na banda, os caras lançaram uma coletânea picareta pracaralho chamada Return of the killer A's (aliás, eles são mestres em lançar coletânea, nesse sentido eles são quase tão caras-de-pau quanto o Iron Maiden). O CD servia claramente um único propósito: puxar uma turnê que teria o Anthrax executando seus maiores clássicos com os dois principais vocalistas da sua história, Joey Belladonna e John Bush, cantando músicas das suas respectivas eras à frente da banda. Pra justificar, os caras gravaram como faixa inédita uma versão da música Ball of confusion, do grupo de soul The Temptations, em que os dois dividiam os vocais.
(o cover, por sinal, é bem bacana, o Anthrax sempre mandou bem nos covers)
Só que aí o projeto deu pra trás, o Belladonna aparentemente deu uns pitis, queria mais dinheiro ou coisa do gênero. E se não me engano os caras fizeram a tal turnê só com o John Bush mesmo.
No mesmo ano, o guitarrista Scott Ian e o baterista Charlie Benante reativaram meio do nada a clássica banda de crossover S.O.D., em uma iniciativa que tinha aquele cheirinho de caça-níquel, em especial porque a popularidade do Anthrax com os fãs estava bem baixa (sem contar que eles tinham acabado de lançar um dos seus discos mais fracos, Volume 8 - the threat is real). Os caras voltaram, gravaram um disco de inéditas, Bigger than the devil, e acabaram brigando de novo e se separando.
(nessa mesma época, eu li uma entrevista com o Scott Ian - acho que foi na Rock brigade - que me deixou meio bolado como fãzinho sem noção das coisas que eu era, em que o cara meio que dava a entender que tava de saco cheio do mundo da música e que só continuava pela grana)
Só que aí, quando parecia que o Anthrax tava indo a passos largos pra vala, a banda resolveu gravar um disco de inéditas... e assim soltaram o excelente We've come for you all. O álbum foi bem recebido pracaralho na época, e muita gente declarava que aquela era a volta por cima definitiva da banda. Aproveitando o bom momento, eles lançaram logo depois um disco ao vivo bem mais ou menos, Music of mass destruction, e um de novas versões de músicas da era Belladonna na voz do John Bush, The greater of two evils.Em 2005, eu pude ir num show da turnê do disco de regravações e pra mim era evidente que os caras tavam ultraempolgados em tocar as músicas, tanto as antigas quanto as novas, e em fazer shows. Mais uma vez, me parecia que aquela banda que eu via no palco era incapaz das mesmas iniciativas picaretas de antes.
(o show também serviu pra me mostrar que o John Bush era mais do que merecedor do posto de vocalista da banda; mesmo como grande fã do Beladonna, a partir dali eu passei a considerar o cara como a voz definitiva do Anthrax, como parecia querer demonstrar o então último disco deles)
Só que aí os malucos erraram feio o passo. Em uma atitude que contrariava justamente aquilo que eles vinham fazendo nos anos anteriores, eles decidiram chamar, mais uma vez, o Joey Belladonna pra uma turnê de reunião da formação clássica (que rendeu mais um ao vivo desnecessário, Alive 2). E praticamente cuspiram na cara do John Bush quando anunciaram planos pra gravação de um disco de inéditas com a mesma formação da turnê.
Mas, pro azar dos caras, a parceria com o Belladonna mais uma vez foi pro espaço (e a essa altura muita gente já se perguntava se o responsável pela coisa não dar certo era o vocalista ou o resto da banda), e o Anthrax ficou sem voz. Naturalmente emputecido com a história toda, o John Bush se recusou a voltar quando essa possibilidade foi cogitada por todo mundo.Sem ter muito o que fazer, a banda foi à caça de outro vocalista. Um desconhecido Dan Nelson foi o escolhido e os caras não perderam tempo em anunciar que o sujeito era fodástico, o maior frontman que o Anthrax já tinha tido, patati, patatá (só não sei quem ainda levava esse tipo de declaração muito a sério). Logo depois anunciaram o novo disco de estúdio, que levaria o título de Worship music e sairia em 2009.
Pois bem, tudo acertadinho, lançamento agendado, turnê marcada... e a banda lança uma nota divulgando o cancelamento dos shows porque o vocalista teria ficado seriamente doente. E logo depois, uma confusão de notícias dando versões totalmente absurdas e díspares vieram de várias fontes diferentes, todas anunciando que o sujeito não cantava mais no Anthrax.(e talvez mais absurdo ainda tenha sido o fato de o John Bush ter aceitado, depois de toda a presepada, cantar em um festival em que a banda não quis ou não pôde cancelar sua apresentação)
Certamente essa história ainda não acabou, até porque não se sabe exatamente qual vai ser o fim do disco novo de inéditas (cogita-se que os vocais seriam totalmente regravados, por exemplo, o que seria no mínimo questionável), apesar de ser certo que ele não sai mais esse ano. Assim como não se sabe quem vai acabar sendo o vocalista da banda. Mas o que me chama a atenção é como uma banda como o Anthrax, que já foi das maiores do thrash/pós-thrash/groove metal, consegue deteriorar sua reputação mais e mais com o passar dos tempos. E fazer isso justamente depois de aparentemente ter dado uma bela volta por cima sem apelar pra forçados revivals old-school.
E ainda por cima fazer algo que me deixaria absolutamente empolgado alguns anos atrás, ou seja, o lançamento do sucessor do We've come for you all, se tornar quase uma piada.
PS: Em outras notícias anthrax-ásticas, durante a San Diego Comic Con (maior convenção de quadrinhos do mundo), foi anunciado que o carequinha Scott Ian vai estrear como roteirista de quadrinhos escrevendo uma revista pra DC... do Lobo! O comentário simpático do cara: 'na maior parte das vezes, eu escrevia o personagem como se fosse eu mesmo falando'. Faz sentido.

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