Uma das minhas lembranças musicais mais antigas é perturbar a minha mãe pra colocar um dos primeiros (talvez o primeiro?) bolachão que eu tive na vida, o Thriller, do Michael Jackson pra tocar incessantemente. Obviamente eu não ouvia tudo de uma vez só, era mais aquela coisa de ‘põe os clássicos aí!’, mas o fato é que era um vício mesmo, daqueles que certamente deve ter levado a minha mãe à beira da loucura de tanto ouvir classicões do pop como Wanna be startin’ something, Thriller, Beat it e Billie Jean.
Foi mais ou menos nessa época também que rolou uma sensação bizarra pelo lançamento do clipe da Thriller, que, se não me falha a memória de pirralho de quatro anos, estreou no Brasil no Fantástico!(o mesmo iria a acontecer alguns anos depois com os clipes da Bad e da Black or white)
O que eu acho mais bizarro disso hoje em dia é pensar que o Thriller saiu em 82... e que, pelo menos até dois anos depois, o disco ainda conseguia causar uma sensação tão absurda a ponto de neguinho criar uma expectativa e uma fissura tão grande em torno de um clipe que foram capazes de marcar um muleque de quatro anos pro resto da sua vida.
(esse é o 'meu' Michael Jackson, luvinha brilhante e tudo mais!)Depois dessa fase áurea, a minha relação com o Michael foi ficando meio inconstante. Na época do Bad, eu já tava mais ligado com o synth pop e começando a olhar com atenção pro rock, e o disco passou meio batido pra mim. O Dangerous, ironicamente, me chamou bem mais atenção (apesar de o disco em si ser bem pior), em particular porque era a época do surgimento da MTV no Brasil, que eu via direto, e onde passavam constantemente os clipes da Black or white (Macaulay Culkin!) e da Remember the time (Magic Johnson!). Só que foram ondas passageiras, do tipo ‘eu gostava na época em que tocava no rádio’.
Mas talvez a prova definitiva pra mim de como o Michael Jackson foi um cara fodão mesmo – e não só um megapopstar filho da puta que come criancinha, com o perdão do trocadilho infeliz – veio uns anos mais tarde. Meu irmão mais novo, quando ainda era bem pequeno, ficou absolutamente viciado no ‘rei do pop’. Eu não lembro exatamente quantos anos ele tinha quando rolou esse vício, então não sei ao certo quando isso aconteceu, ou porque. Talvez tenha sido fruto da promoção pesada pros shows em 93? Sei lá. O fato é que o muleque adorava, amava mesmo, o Michael. Ele sabia todos os passos das danças (o que não significa que ele soubesse fazer os passos), conhecia todos os clipes, imitava os trejeitos do cara e, claro, fingia que sabia as letras, cantando tudo num pseudo-inglês de criança enrolado e hilário.
O resultado disso foi que toda a minha família teve a oportunidade (pra alguns provavelmente não lá tão bem-vinda) de uma nova superexposição ao Michael Jackson e suas músicas – se é que alguém no mundo precisava de uma coisa dessas naqueles tempos. Todo mundo lá em casa teve que aprender tudo sobre o cara, em particular da era ‘clássica’, do Off the wall pra frente. Era CD, fita VHS, filme, jogo de videogame e o cacete a quatro.
Mas o mais bizarro é que pra mim o resultado disso não foi uma overdose de gritinhos, passos de dança bizarros e afins, ou pelo menos não em um sentido negativo. Na verdade, essa foi a época em que eu realmente percebi a fodeza suprema dos clássicos do cara, em que eu pude resgatar minha paixão de infância pelo Thriller, em que eu pude descobrir o Off the wall e em que eu pude pegar o Bad e chegar à conclusão de que, sim!, ele é um belíssimo disco de pop (nunca me esqueço que viciei lindamente em Smooth criminal nessa fase). Ao contrário de pegar ódio do já totalmente esbranquiçado popstar, virei fã de vez. E é bom ressaltar que nesses tempos minha dieta musical já tinha – e muito! – heavy metal.
(bom, só pra não babar ovo demais, posso dizer que isso também serviu pra me mostrar que realmente essas paradas de soul e Motown não são a minha praia, já que eu continuei achando Jacksons Five e os primeiros discos solo do maluco chatos pracaralho)
É uma pena que dali pra frente a figura do cara tenha se tornado progressivamente mais bizarra e distante de qualquer possibilidade de humanidade. Não foi só a pele dele que foi empalidecendo, mas a própria carreira do cara e a, talvez mais importante, a adoração das pessoas (e minha) por ele. Na época do HIStory, eu já era muito rock/metal! pra prestar atenção nas presepadas do cara, tipo gravar clipe na favela... e, além do mais, as músicas não eram mais lá grandes coisas. Daí, entre acusações, operações, processos e histórias escrotas afins, eu (assim como acho que 99% das pessoas do mundo) me distanciei do Michael.
(é, Michael, eu também fiquei bolado que tu conseguiu ficar mais medonho do que quando foi maquiado de zumbi!)Em 2001, o polêmico lançamento do Invincible me chamou a atenção simplesmente por eu estar passando pela minha fase de estafa metálica, em que eu queria ouvir de tudo um pouco. A reação virulenta e agressiva de todo mundo me deu uma certa pena do cara, até porque, porra, o disco nem é tão ruim assim. Se bobear é até melhor que o Dangerous.
Me lembro que o disco saiu e, pouquíssimo tempo depois, já tava em promoção a 9,90 no Submarino, Americanas ou coisa parecida. Eu comprei, claro (o meu tinha a capa azul), e, pá, ficava ouvindo o CD direto. Não que seja uma grande obra do pop – e obviamente não poderia deixar de ser uma decepção – mas eu me divertia com ele. Pra mim era uma extensão bem natural e um pouco mais divertida do Dangerous. Meu irmão mais velho às vezes entrava no meu quarto, emputecido e falando pra eu abaixar o volume do som, perguntando ‘que porra é essa?’ e eu ‘porra, é o novo do Michael!’ e ele ficava revoltado ‘para de ouvir essa porra, esse cara tá acabado, tu só tá ouvindo isso e dizendo que gosta pra ser diferente’.
O fato é que o Michael realmente não era mais o mesmo, mas ele ainda tinha aqueles traços que fizeram dele o maior fenômeno do seu tempo: uma voz cristalina, bizarramente limpa e afinada, uns trejeitos vocálicos indefectíveis que enriqueciam as músicas e davam a elas uma personalidade imediata, um talento especial pra escrever melodias e fazer arranjos muito mais complexos do que eles pareciam ser à primeira ouvida, mas que nunca se colocavam no caminho da força pop que as músicas tinham. Claro, mais uma vez, o disco não era nada de mais, mas também não era nenhuma desgraça. Ele só não era o novo Thriller. Mas também, o que foi alguma vez na história o novo Thriller?
O cara foi tão estraçalhado que, de 2001 até morrer, não fez muita coisa. Passou de artista a mito, a 'criatura' que habita o inconsciente das pessoas, mas não atua mais no mundo material. Apesar de estar vivo, não é nenhum exagero dizer que o cara já tava 'morto'. Não que fosse impossível uma volta por cima, e é muito fácil teorizar essa pseudo-morte precoce agora que o cara efetivamente vestiu o paletó de madeira (se é que já rolou o enterro, não tô acompanhando muito a novela pós-batida de botas), mas, porra, esses foram anos em que tudo que se referia a ele só existia por causa de um olhar pra trás.
(esse já não é muito o 'meu' Michael... mas ainda assim ele era gente fina)O que eu acho mais foda disso tudo, até mesmo da morte dele propriamente dita, é constatar que, olhando só a música, o Michael Jackson teve uma obra – ou pelo menos parte de uma obra – que é meio atemporal.
Eu tava pensando nisso esses dias. Tipo ‘quando acabar o luto e a puxação de saco pela morte do cara, as homenagens e as babações de ovo, será que o maluco vai ser esquecido?’. E eu acho que cheguei à conclusão que não. Enquanto houver música pop, o nome 'Michael Jackson' vai ter peso e relevância. Não é nem só pelos recordes, pela revitalização que o cara operou na indústria fonográfica americana, pela inovação musical ou pela biografia polêmica. A parada é que as músicas dele, os clássicos, as obras-primas, são fodas pracaralho. São ridiculamente fodas. São imortais mesmo. E é muito irado o fato de eu até ter chegado meio tarde pra acompanhar essa história pessoalmente, mas mesmo assim conseguir voltar até meus quatro anos de idade pra falar que eu me lembro do Michael Jackson no auge!
Eu sinceramente não quero saber porque o cara foi o maior, porque ele vendeu mais do que qualquer um, ou porque ele se transformou no ser bizarro que ele veio a ser. Eu só quero chegar um dia numa festa animada e, pá!, começar a tocar aquela introdução mais que perfeita da Billie Jean e geral começar a dançar na maior empolgação... e ali você saber que aquilo é uma das coisas mais fodas já feitas na história.
É, Michael... preto, branco, sem cor definida, Frankenstein, na versão de Lego, na versão do Picasso cover, até sem rosto você foi foda!

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