quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Sessão dessa pra melhor: Running Wild

Como já foi assunto aqui do blog, uma das bandas mais fodaças da história da música pendurou, no início do mês, as guitarras. O Running Wild, liderado pelo folclórico Rolf Kasparek, realizou seu 'show de despedida' no dia 30 de julho, no Wacken Open Air de 2009, deixando órfãos uma legião de fãs ao redor do mundo.

Nunca vou me esquecer do meu primeiro contato com a banda: peguei umas fitas emprestadas com meu grande amigo Dotto, entre as quais ele afirmava estar um dos riffs mais fodas de todos os tempos. No caso, ele não estava falando do Running Wild, mas sim da clássica Doomed by the living dead, do Mercyful Fate. Naqueles idos de 1996, eu ainda não tinha bom gosto suficientemente apurado para apreciar o vocal, digamos, peculiar do King Diamond, então logo descartei a banda como sendo 'uma das piores coisas que eu já ouvi'. Mas outra coisa naquelas fitinhas me chamou a atenção.

Era outro riff, também candidato a mais animal da história do metal. No caso, o da Branded and exiled, do Running Wild. A fita continha todo o disco de mesmo nome, e rapidamente se transformou em uma companheira inseparável. E a banda começou a escalada no meu gosto pessoal que a levaria a ser minha 'segunda banda preferida', logo depois do Manowar.

Em seguida, eu viajei pra Escócia, de onde voltei com quatro discos dos caras: Branded and exiled, Under Jolly Roger, Blazon stone e Pile of skulls. Foi só questão de tempo pra completar a discografia da banda e bradar seu nome em discussões tão desnecessárias quanto divertidas sobre como o Running Wild era melhor do que todas as bandas que meus amigos ouviam e como o Rolf Kasparek era praticamente o cara mais foda do mundo, ou pelo menos da Alemanha.

Com o triste fim do grupo (triste mesmo, já que nos últimos anos a criatividade/relevância deles tava em baixa), agora eu tenho a perfeita oportunidade pra fazer um post em homenagem a uma das bandas que eu mais ouvi na vida!

O Running Wild foi fundado na Alemanha em 1976 (!!!), com o nome original de Granite Heart e, mais tarde, trocaram de nome, usando como inspiração o clássico do Judas Priest. Em 1983, a banda emplacou duas músicas na coletânea Rock from hell - German metal attack (de que também participava o Grave Digger) e, ano seguinte, mais duas na clássica compilação Death metal.

(apesar do nome hoje totalmente equivocado - mesmo com a presença de um totalmente deslocado Hellhammer no tracklist - o LP teve grande importância na cena do metal alemão por também revelar o Helloween para o mundo)

No mesmo ano, saiu o primeiro disco da banda, Gates to purgatory. Nesses tempos, o Running Wild tinha uma dupla de 'integrantes principais': além de Kasparek, que na época usava o hilário pseudônimo Rock 'n' Rolf, o outro guitarrista-de-pseudônimo, Preacher, também escrevia boa parte das músicas e tinha influência marcante no som da banda.

O Running Wild dos primórdios era um grupo bem cru, guiado por riffs marcantes e razoavelmente pesados praqueles tempos (e que levavam boa dose de influência da NWOBHM), de temática meio pseudo-satanista (quase como uma versão pré-power metal do Venom). O que acontecia era que os caras não eram exatamente seguidores de Satã, mas usavam a figura do demo como símbolo de rebelião contra o 'sistema'. Pro Running Wild, o chifrudo era como uma representação do poder de 'heroi libertador' encarnado no fundo pelo próprio metal.

(Running Wild na sua fase 'somos tão malvados que usamos bigodinho de porteiro sem nenhum resquício de vergonha!')

Só que, antes da gravação do segundo álbum, aconteceu uma mudança que determinou o futuro da banda: o tal Preacher caiu fora pra, ironicamente, virar padre (!!!) deixando a liderança a cargo do nosso imortal Rock 'n' Rolf. O segundo disco (um dos mais subvalorizados da história do metal, no nível de um So far, so good... so what!), o já mencionado Branded and exiled, aperfeiçoa o metalzão sujo dessa primeira fase da banda, com riffs ultra-fodaços e uma pegada irresistível, que só são atrapalhados por uma produção meio porca demais.

Foi no terceiro trabalho de estúdio, de 1987, que a banda começou a moldar sua identidade dentro da cena do power metal alemão. Em Under Jolly Roger aparece, pela primeira vez, a temática que definiria os alemães até o fim da sua carreira: as músicas sobre piratas. É bem verdade que nesse álbum o som deles ainda tem ligações diretas com o metal riffado dos dois primeiros discos, mas a coisa começa sim a ficar mais épica e melódica. De certa maneira, é como se o Kasparek tivesse trocado Satã por piratas como símbolo de rebeldia e liberdade, e essa troca de 'identidade' tivesse apontado o grupo na direção de algo mais glorioso e menos sombrio.

O tema dos piratas capturou a imaginação dos nerds fãs de metal ao redor do mundo e deu aos caras alguma evidência extra. Com isso, a banda repetiu a dose em Port Royal, um disco em que eles estão claramente em fase de transição entre um som mais cru e outro mais verdadeiramente power metal, o que deixa o álbum no meio do caminho de forma meio frustrante.

A transformação só estaria completa mesmo no disco seguinte, Death or glory, visto por muita gente como o grande clássico da banda. Na verdade, o álbum traz duas músicas que poderiam definir praticamente tudo o que a banda veio a fazer depois: o hino Riding the storm, uma das músicas mais perfeitas da história do power metal, e a mais-que-clássica Bad to the bone, uma das melhores representantes do lado mais hard rock do som do Running Wild. O repertório de Death or glory ainda não é aquela maratona '100% Running Wild na veia' que viria mais pra frente, particularmente porque nessa fase o Kasparek ainda deixava outros membros colaborarem na composição das músicas, resultando em um material mais diverso (e que, contraditoriamente, por vezes tornava o disco menos focado e matador).

Em seguida, veio o tamém já mencionado Blazon stone, praticamente uma reprise do estilão Death or glory de ser. E foi mais ou menos nessa fase que o Kasparek surtou e decidiu fazer o que bem entendesse com a banda. Depois do Blazon stone, a composição das músicas fica, em 99,9% dos casos, a cargo do guitarrista/líder/tirano.

(Rock 'n' Rolf quer VOCÊ para sua legião de adoradores!)

O que, nesse caso em particular, veio para o bem (pelo menos em um primeiro momento). A mania de controle do cara rende instantaneamente uma dupla de álbuns irrepreensíveis, os dois melhores trabalhos da fase powermetalzão do Running Wild (na minha opinião, claro): os indispensáveis Pile of skulls e Black hand inn, em que você pode dar play com o shuffle ligado e a chance de você ouvir uma música perfeita de power metal alemão é assustadoramente alta. O maluco tava tão inspirado nessa época que até as faixas-bônus dos singles que a banda soltava eram ridiculamente fodas.

O problema é que o fato de o cara ter assumido a posição de 'único membro' da banda obviamente cobrou uma dívida cara um pouco depois. O Running Wild se tornou uma das bandas mais repetitivas do seu tempo, se colocando em uma sinuca da qual era em difícil de se escapar. Ainda mais pela reputação difícil e excêntrica que começava a se consolidar ao redor do Kasparek, ele passava a contar apenas com músicos contratados, que pouco se identificavam com a banda e que contribuíam em quase nada para o resultado final, engessando ainda mais o som da banda e tornando seu futuro problemático.

É bem verdade que o cara ainda conseguiu soltar mais uma dupla de bons discos, o belo Masquerade e o excelente The rivalry. Por um lado, esses CDs quase nada acrescentavam ao estilo da banda; por outro, mantinham a empolgação e a paixão pelo metal em um nível que garantia a sua qualidade.

O declínio mesmo começou com o polêmico disco Victory, em que supostamente o Kasparek teria usado uma bateria eletrônica (que estaria escondida sob o 'pseudônimo' Angelo Sasso, que acabou virando piada interna no metal alemão). O CD é mais um desses trabalhos de transição, em que o Running Wild começa a se virar mais para as influências do hard rock do seu som, pegando mais leve no power metal. Apesar da 'mudança', a banda soa menos inspirada, original e empolgada do que nos trabalhos anteriores.

Os dois últimos registros em estúdio da banda seguem o padrão Victory, com uma mescla de power metal e hard rock sem muita inspiração e pegada bem diretona e sem ambição. Os discos (The brotherhood e Rogues en vogue) têm seus momentos divertidos, mas são pálidos reflexos dos melhores tempos da banda.

(o cara ficou tão egocêntrico nesses últimos tempos que ele escancarou tudo de vez e passou a ser o único a sair nas fotos de divulgação e nos encartes de CD da banda, incorporando definitivamente a banda em si mesmo)

E foi nessa que o Kasparek decidiu acabar com tudo. Ele ainda montou o projeto Toxic Taste, que é basicamente uma extensão do que ele vinha fazendo com o Running Wild nos últimos anos, acentuando ainda mais o hard rock e abafando o metal. Mas essa é uma discussão pra outro dia e outro post.

O fim melancólico foi refletido no setlist meio mais ou menos montado pela banda pro show de encerramento:

- Chamber of lies
- Port Royal
- Bad to the bone
- Riding the storm
- Soulless
- Prisoner of our time
- Black hand inn
- Purgatory
- The battle of Waterloo
- Raging fire
- The brotherhood
- Draw the line
- Whirlwind
- Tortuga Bay
- Branded and exiled
- Raise your fist
- Conquistadores
- Under Jolly Roger

Tudo bem, tudo bem. O setlist é (salvo poucas exceções) foda. Eu adoraria ter visto esse show, pagaria muita grana pra ir até lá, ver os caras vestidos de pirata e cantar essas músicas ao vivo. Mas, porra. O meu setlist dos sonhos seria completamente diferente! Acho que ficariam umas quatro ou cinco dessas músicas e o resto seria mudado.

(o último adeus...)

Talvez essa seja a confirmação de como o Running Wild teve uma carreira extremamente foda. Mesmo com um set 'fraco', eu não consigo evitar de pensar que esse deve ter sido um dos shows mais fodaços do ano.

Ah, Running Wild. Não posso deixar de ter uma ponta de tristeza ao digitar esse post de despedida. Afinal, o meu maior sonho impossível do metal era ver um show deles. Mas, sendo realista, o fim da banda é até bem-vindo. Pelo menos a gente sabe que ela acabou sem gravar nenhum disco realmente ruim, nenhuma balada (!!!) e uma infinidade de músicas fodas que eu vou continuar escutando até o fim dos meus dias...

Face in the wind, we're riding the storm
We'll stay our course, whatever will come
Wandering souls in the sea of the damned
Death or glory! Oh, we are riding the storm

Foda pracaralho!

3 comentários:

Anônimo disse...

TÁ AÍ UMA BANDA QUE EU SEMPRE VOU AMAR, TENHO ATÉ O ADRIAN SOS NO BRAÇO, MEU SONHO ERA VÊ-LOS AO VIVO MAS, SE NÃO ME ENGANO SÓ PISARAM NA AMÉRICA UMA VEZ E FOI NA ÉPOCA DO GATES AINDA, OU SEJA,, JAMAIS OS VERIA POR AKI, LEGAL OLHAR QUE NUNCA FIZERAM NENHUM TRABALHO RUIM OU COMERCIAL, TRISTE SABER DO FIM DE QUALQUER COISA QUE VC AME NA VIDA.

"We are prisoners of our time
But we are still alive
Fight for the freedom, Fight for the right
We are Running Wild"

Dotto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dotto disse...

Pô, Fernando, eu te invejo. Tem que ser muito de bem consigo mesmo pra proclamar assim aos quatro ventos, sem receios, que as duas bandas preferidas são o Manowar e Running Wild. Olha a indumentária dos caras. O que s pessoas vão pensar?