Talvez o fator mais importante pra se declarar que o neothrash chegou ao seu auge na consciência metálica popular seja o fato de que ele fez sua presença ser sentida pelas maiores bandas da história do thrash. É verdade que muitos conjuntos essenciais do gênero já tinham entrado nessa onda ao longo da última década (como o resgate do thrash pelos alemães do Kreator e Destruction, a volta do Testament etc.), mas só agora ela chegou à linha de frente mesmo do subgênero.
Muito se fala sobre um teórico 'big four' do thrash, que seria composto por Metallica, Megadeth, Slayer e Anthrax, mas, se a gente for olhar em termos de popularidade e sucesso comercial, é fácil de perceber que as duas últimas ficam bem pra trás em relação ás duas primeiras. De qualquer maneira, desses quatro, é evidente que o Anthrax foi o único a não ser contaminado pelo neothrash (apesar de o último trabalho dos caras ainda estar inédito, então essa é uma afirmação ainda incerta): Metallica, Megadeth e (em menor grau) Slayer lançaram nos últimos anos (2008-2009) CDs que refletem a ressurgência do estilo que os consagrou.
O caso do Slayer é um tanto diferente dos de Metallica e Megadeth, já que não houve exatamente uma reprodução do estilo de outrora: a principal mudança no sentido 'volta no tempo' foi o retorno do baterista Dave Lombardo pra recompor a formação clássica da banda, resultando na gravação do Christ illusion. Além disso, não dá pra dizer que o álbum de 2006 ou que o novo World painted blood sejam um resgate do Slayer antigo (ou pelo menos que sejam mais cópia do que os caras vêm fazendo desde o Seasons in the abyss).
O que faz com que os melhores exemplos de tudo isso que eu enrolei pracaceta pra dizer em quatro longos parágrafos sejam os últimos trabalhos de estúdio de Metallica e Megadeth. O que, aliado à conturbada relação histórica entre as duas bandas (a eterna batalha Lars e James vs. Dave), abre espaço pra fazermos uma comparação babaca (mas não tão despropositada assim) entre os dois discos. Até porque todos os fóruns de heavy/thrash/pop metal da internet já sofreram bastante com discussões do tipo 'Megadeth sux, Metallica rlz' ou 'Endgame eats Death magnetic for breakfest, ha!' e tosquerias do gênero.
O CD do Metallica foi lançado em 2008 e na época causou um grande rebuliço no mundo do heavy metal e também fora dele. O fato de James, Kirk e Lars voltarem a tocar metal e reeditarem estruturas típicas dos seus grandes clássicos dos anos 80 (com solos!) levou muita gente a reviver a fé na 'maior banda de metal do mundo'. O disco vendeu pracaceta, ganhou Grammy, recolocou o Metallica na mídia e, lógico, também deu combustível renovado praqueles que ainda se consideram traídos pela era Load-Reload-e-especialmente-St.-Anger-como-eles-conseguiram-gravar-um-disco-tão-ruim soltarem os cachorros em cima da banda.É fato que o disco tem lá seus (muitos e gritantes) defeitos, mas no geral, pra mim, o prazer de ouvir os caras tocando aquele thrashzão pésadão que os consagrou acabou superando as decepções - além disso, me parece inegável que o disco tem alguns belíssimos momentos.
O disco do Megadeth saiu esse ano e - obviamente - não causou tanto alarde (provavelmente pra mais uma decepção do monsieur Mustaine) pelo mundo afora. Mas na comunidade metálica ele foi um tremendo sucesso, sendo ovacionado em 99% das resenhas que eu li (especialmente na internet). E claro que a fãzada pentelha do MuMu perturbou a paz de todo mundo falando que esse era o melhor disco de todos os tempos depois do Rust in peace (e talvez, quem sabe, do Peace sells).Afora a idiotice inerente de querer comparar os dois álbuns (é evidente que os estilos das duas bandas são - hoje - bem diferentes), esse confronto é, por um lado, inevitável. E depois de você ouvir/ler um milhão de vezes retardados descontrolados dizendo que um é muito melhor do que o outro, simplesmente não dá pra não ficar com vontade de dar a sua opinião.
(e essa comparação é foda porque o Mustaine é uma figura tão babaca e arrogante que eu nunca consigo olhar pro Megadeth com a mesma boa-vontade que eu tenho com o Metallica)Só que, no fim das contas, o fato é que - guardadas as devidas proporções - os dois discos são bastante semelhantes. Não só 'espiritualmente' como na prática mesmo.
Tanto o Metallica quanto o Megadeth já estavam nesse caminho de resgatar as glórias perdidas há algum tempo. Tudo bem, você pode achar que o St. Anger não tem porra nenhuma a ver com o Metallica clássico, mas existem ali diversos elementos trazidos da fase áurea, como as longas durações das faixas, o peso, a agressividade (além de coisas 'menores', como um logo mais parecido com o clássico, a ilustração da capa feita pelo artista Pushead e o fato de as letras aparecerem integralmente no encarte). Na verdade, se você para pra pensar, do lado do Load até o Reload já parece um passo (tá bom, um passinho, quase um tropeço) na direção da volta às origens.
No caso do Megadeth, isso também vem de algum tempo. A começar pelo tenebroso The world needs a hero (possivelmente o pior CD da minha vasta coleção), que foi uma resposta ao som bem comercial do Risk. E, desde a 'volta' do Mustaine com o The system has failed, os fãs da banda vêm consistentemente proclamando que o último disco resgata os bons tempos do Rust in peace. Só que nesse caso, o MuMu fez uma transição bem mais rápida ao metal, adotando uma espécie de estética 'power metal americano' com alguns toques de Megadeth clássico e também da fase pós-thrash.
Só que nenhum dos discos mencionados nos últimos parágrafos refaz o percurso de outrora como os últimos trabalhos de estúdio das duas bandas. Death magnetic e Endgame são CDs em que várias vezes você se pega pensando que tal passagem lembra tal disco, tal riff é de tal música, tal estrutura já apareceu em tal clássico. Em cima disso, nos dois discos você consegue ouvir referências claras a todas - ou quase todas - as fases da banda em questão. E, também nos dois casos, esse caminho parece ter sido uma decisão bem consciente, divulgada dessa forma e sentida como tal pelo ouvinte.
Entrando em uma discussão qualitativa completamente despropositada, acho que cada um dos dois têm suas vantagens. O disco do Megadeth tem o mérito e a vantagem objetiva de ser bem mais metal! do que o do Metallica (ser mais metal é algo que faz de você objetivamente melhor! não tem caô!), seja na produção (que, apesar de ser meio linha-de-produção-do-Andy-Sneap é foda pracaralho; aliás, qualquer coisa que o Andy Sneap faz acaba sendo foda de um jeito ou de outro), na performance dos músicos (o Chris Broderick é foda demais e fez uma dupla fabulosa com o Mustaine) e até mesmo em grade parte das composições. Talvez por isso, não exista nenhum momento mais 'Risk' no álbum.As grandes vantagens do disco do Metallica - pra mim - são o repertório e a consistência. Nada em Death magnetic é genial como nos tempos áureos, mas as faixas (em especial as da primeira metade) são empolgantes, daquelas que você fica com vontade de ver no show pra cantar junto e bater cabeça. Os riffs são bons, os refrãos são pegajosos, as estruturas das músicas são bem pensadas. Não são nada que a banda não tenha feito antes, mas funciona. Além disso, também impressiona o fato de ele reunir referências a todas as fases do Metallica com uma consistência bem sólida. É um disco que dá vontade de ouvir e reouvir como um todo, e não só colocar os hits no mp3 genérico, coisa que acontece com Endgame (assim como nos dois CDs anteriores do Megadeth).
Eu sempre fui meio partidário do Metallica na eterna briga com o Megadeth (apesar de favorecer a banda do Mustaine no período de 88-90), então minhas considerações não precisam ser levadas muito a sério (tá, eu admito, escrevi essa frase só pra evitar que os puxa-sacos de MuMu não me mandem comentários ofensivos desnecessários).
Mas a verdade é que os dois discos são bem nivelados entre si. Talvez seja até o caso de preferir um ou outro dependendo do dia. De qualquer maneira, me parece que, mesmo com todos os defeitos (em especial aquela decisão pensada de 'vamos voltar no tempo pra ver se ganhamos alguma credibilidade e mais uns trocados') dos dois álbuns, esses parecem ser os melhores lançamentos das duas bandas desde os tempos clássicos.
(sim, o preto e o Countdown to extinction contam como período clássico! não me encham o saco!)
Será que eles vão conseguir manter o bom nível nos próximos trabalhos? Essa é a pergunta que não quer calar!

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