O Iced Earth é uma banda que eu 'descobri' há um milhão de anos atrás, mais precisamente em 1996: ao ver a capa do The dark saga na Hard 'n' heavy do Flamengo sem nunca ter ouvido falar nos caras, não consegui conter um impulso nerd e comprei o disco. Logo de cara me amarrei na pegada power meio emotivo com uns lances de thrash - assim como na voz atípica (para os padrões agudinhos do power) do então desconhecido Matthew Barlow. Depois desse disco, a banda continuou crescendo em popularidade e atingiu o auge da fodeza com o maravilhoso-triplo Alive in Athens, uma verdadeira destruição de álbum ao vivo como poucas vezes se ouviu.
O problema é que, logo depois, os caras começaram a se repetir pracaralho e banda meio que foi por água abaixo (pelo menos aos meus ouvidos). Pra piorar, o vozeirão do Barlow (que ficou bolado com os ataques do 11 de setembro e deu o fora da banda pra virar Seu Puliça) deu lugar ao injustiçado 'Ripper' Owens, que mais uma vez deu azar e cantou em dois discos com material fraquinho - além disso, era claro que a voz do cara não se encaixava com os riffs do tirano Jon Schaffer tão bem quanto a do seu antecessor.
Por essas e outras, o Iced Earth parecia ser uma daquelas bandas que só ia dar as caras aqui no Brasil quando já tivesse passado há muito do prazo de validade - o que, de certa forma, foi o que aconteceu. Mesmo com a volta do Barlow, a banda gravou um disco que nem de longe lembravam os seus melhores momentos. Por outro lado, a chance de ver os caras ao vivo com a sua 'voz' definitiva acabou com minhas dúvidas: era hora de gastar um dindin e viajar até a terra da garoa (ou melhor, das chuvas torrenciais) pra ver show de metal.
A viagem, como não poderia deixar de ser, foi um saco. Atrasos, desconforto, som alto pracaralho foram alguns dos (obrigatórios) mini-perrengues do trajeto. Pelo menos aquelas discussões sempre idiotas (mas também sempre divertidas) sobre bandas de metal ajudaram a passar um pouco do tempo.
Chegando lá, chovia pracacete, como já era esperado. Mas pelo menos pude fazer um pit-stop na casa do meu grande amigo Werter e, ao contrário dos meus companheiros de viagem, pude relaxar tomando umas cervejinhas inocentes e jogando conversa fora. Depois, foi só partir pro Via Funchal, lugar clássico de shows na cidade onde eu nunca tinha colocado os pés. A vizinhança já estava bem cheia a essa altura do campeonato, com diversos fãs elétricos pela iminente apresentação de uma banda que - incrivelmente - ainda era praticamente inédita no país (o primeiro show tinha rolado dois dias antes em Belo Horizonte; como sempre nada no Rio!).
O fato é que o nosso timing foi impecável, já que a gente entrou, passou no banheiro e, um pouco depois que nos acomodamos na pista, as luzes se apagaram e começou a tocar a intro In sacred flames. Era hora de ver se o perrengue tinha valido a pena.
A euforia foi generalizada com a entrada da banda, mas a abertura em si foi meio morna, com a bem mediana Behold the wicked child, do último disco de estúdio, The crucible of man. Claro que os fanáticos agitaram, mas o verdadeiro início do show viria na sequência: a esmagadora The burning times, que também fazia as vezes de abertura no já citado Alive in Athens, botou todo mundo pra bater cabeça e cantar o refrão a todo oxigênio e deu o tom da noite. O Schaffer pode ser um mala, mas pelo menos a palavra dele parece ser confiável: o cara tinha prometido um set de clássicos - e foi o que aconteceu daqui pra frente.Se alguém tinha dúvidas sobre o posto cativo de Barlow como vocalista definitivo da banda, essas questões desapareceram na música seguinte. Declaration day, do execrado The glorious burden, ficou mais ou menos umas dez vezes mais poderosa na voz do cara, e me fez até pensar que o álbum patriótico do Iced Earth talvez pudesse não ser tão vergonhoso se ele ainda estivesse no microfone naqueles tempos. O lado mais thrash apareceu em sequência na dobradinha Violate e Pure evil (fácil fácil uma das músicas mais fodas do grupo), o que me conferiu uma nova dose de sabedoria metálica: beber demais antes dos shows pode resultar em dores de cabeça nos momentos mais agitados.
Não seria uma dor de cabeça que me faria parar de agitar (infelizmente, ela me acompanhou o show inteiro), mas, talvez por ela, os momentos mais cadenciados do show se mostraram especialmente apoteóticos. É verdade que todas as baladas do Schaffer são idênticas umas às outras, mas o fato é que foi empolgante pracaralho cantar essas músicas ao vivo.
Eu não sei se eu estava muito concentrado em agitar pracaralho e cantar o máximo possível, ou se os caras são meio paradões mesmo, mas o fato é que eu não prestei muita atenção na performance da banda em si. Mas acho que o verdadeiro motivo é a simples presença do Matthew Barlow no palco. Sinceramente, a presença de palco do cara nem é assim tão fenomenal, mas o que poderia faltar em movimentação e comunicação com a plateia é superado umas mil vezes pela forma como o cara canta. Apesar de ser ele o cara mais, digamos, 'esperado' pelo fãs, foi ele também o ponto mais surpreendente do show. Como alguém pode cantar tão bem, de forma tão fantástica e tão contagiante ao vivo eu não sei. O maluco não peida pra nenhum agudo, canta as notas altas de forma eletrizante e as graves de forma emocionante, sem nunca deixar a pegada cair. Foi facilmente um dos maiores vocalistas que eu já vi cantando ao vivo.
A única música em que ele não cantou (como sempre o Jon Schaffer vez as vezes de vocalista na thrashona Stormrider) teve sua ausência suprida por riffs sinistramente fodas e pela incontida agitação do público. Depois dessa, hora de um dos clássicos maiores da banda e um dos momentos mais apoteóticos da noite: The hunter ao vivo foi embasbacante, tipo de coisa que você nem percebe e já está rasgando a garganta pra cantar o mais alto possível o refrão glorioso.
Pro fim do set normal, o Iced Earth reservou um verdadeiro presente pros fãs: a trilogia 'something wicked', do álbum Something wicked this way comes tocada na íntegra com empolgação metálica ao máximo foi uma beleza de se ver e certamente o destaque do show pra muita gente que ali estava. Prophecy foi emocionante pracacete, Birth of the wicked foi heavy metal pracaralho e The coming curse foi daqueles épicos enormes que passam num piscar de olhos. Foda pracacete.
Depois que os caras saíram do palco, o povo foi à loucura e ficou lá fazendo corinho de 'oh I know, oh I know, he's watching over me'. Porra, peraí!, tanta música animal pra tocar e nego pede uma baladinha safada? Que tal uma Dante's inferno, uma Travel in Stygian, uma When the night falls? Que tal uma Slave to the dark, porra?!? Não, nego quer cantar a baladinha! Incrível o poder das baladinhas idênticas do Jon Schaffer! Não é à toa que o cara continua escrevendo pelo menos uma a cada disco.
O fato é que Iced Earth não é Metallica nem muito menos Dream Theater pra ensaiar uma porrada de músicas pra turnê e fazer improvisos no set. No caso, pra minha sorte, já que, na sequência, eu pude me lembrar dos idos de 96, quando eu era um adolescente incauto e adquiri inocentemente meu The dark saga e me apaixonei pela banda. Dark saga e A question of heaven foram dois daqueles momentos indescritíveis que só quem já viu sabe como foi e só quem ouve metal sabe como uma porra dessas pode ser tão incrivelmente foda. Pra mim, A question of heaven já entra naquela galeria pessoal de coisas imortais que ficam estampadas na sua alma pra sempre.
Depois disso, o que viesse era lucro - e realmente foram duas músicas que não entram no meu rol de 'favoritas do Iced Earth'. Ainda assim, eu, claro!, cantei My own savior e Iced earth com o que me restava de energia, porque num show desses não tem como você não dar o máximo de si até o último segundo.
O resultado? Saí fudido do show, tomei mais umas cervejas (estranhamente rodeado por umas patricinhas super arrumadinhas que passavam pela gente pra chegarem até uma boate ali do lado e deviam pensar 'quem são esses malucos?'), cheguei em casa com uma puta dor-de-cabeça, mas valeu a pena. Claro que valeu, né. O show foi foda pracacete. Matthew Barlow é o cara. E Matthew Barlow e Iced Earth é uma combinação quase infalível.
Agora, vou te falar uma coisa: tem que gostar muito dessa porra de metal pra encarar essas merdas dessas viagens...
Setlist fora de ordem: Iced earth, Stormrider, Pure evil, Dark saga, Violate, The hunter, A question of heaven, Burning times, Melancholy (holy martyr), My own savior, Prophecy, Birth of the wicked, The coming curse, Dracula, Declaration day, Ten thousand strong, In sacred flames, Behold the wicked child.

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