terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Música irada do dia: Two winters only

A morte é uma coisa estranha. Tem sempre um toque pessoal mesmo quando leva alguém com quem você nunca teve contato ou relação. Tem algo de errado mesmo quando toca alguém que já viveu bem e bastante, cumpriu seu ciclo de vida de maneira respeitosa. Tem uma aura artificial mesmo que a gente saiba que é um desenlace perfeitamente natural da vida.

Mas é ainda mais estranho quando você sabe que ela vem.

Não que a maioria das pessoas saiba quando vai passar desta para outra (dizer se essa outra é melhor ou não está fora da minha alçada), mas há situações em que você sabe que a morte é, além de inevitável, iminente.

Foi o que aconteceu essa semana com um amigo da minha família. A morte dele foi anunciada assim de repente, como um susto, de um dia pro outro. 'Hoje é o seu último dia caminhando sobre a terra', como se um panteão de divindades decretasse seu fim irrevogável. Ele, que já estava cansado de caminhar e de fazer praticamente todo o resto, nem deu ouvidos e ficou lá no seu canto tranquilo esperando que nada mudasse. Ou que tudo acabasse de uma vez, é difícil afirmar.

Todo mundo que o conhecia já esperava por esse dia. Afinal, ele estava nos finalmentes. Só que não não se imaginava que fosse acontecer desse jeito; a gente (ou pelo menos eu) esperava por um 'ele não acordou hoje de manhã', coisa do tipo. O anúncio talvez tenha sido o mais estranho - no fundo, mais uma para a interminável galeria de estranhezas da morte.

Eu tenho que confessar que, durante muito tempo, tive minhas implicâncias com ele. O sujeito era folgado e egocêntrico - para ele, suas vontades vinham antes de tudo. Era como uma criança, que necessitava de mais atenção e cuidados do que eu tinha paciência pra dar. E, como em acontece em toda família, às vezes esses cuidados acabavam sobrando pra mim. E todos defendiam ele - era como se sua boa-pinta, sua simpatia e sua simples presença bastassem pra que ele ficasse ali às custas eventuais da minha paciência. Além disso, pra mim parecia evidente que ele só estava ali porque ganhava essas regalias - a qualquer um que desse essas coisas ele concederia sua aliança. No fundo, ele simplesmente era um sortudo de ter sido adotado por uma família que o tratava tão bem quanto a nossa e, como os sortudos, esperava as coisas acontecerem e não se preocupava muito em dar algo em troca.

Em bom português, eu não entendia porque neguinho gostava tanto dele.

Mas... um dia eu estava na fossa. Pra baixo mesmo. Voltei pra casa, deserta, e lá estava ele, ali no seu canto, sem se manifestar muito. Eu, pela simples possibilidade de ter uma companhia silenciosa, me aproximei. E foi nesse momento que eu finalmente comecei a compreender suas virtudes. Não era, como eu imaginava, necessário estender benefícios: ele ficaria ali do meu lado sem fazer perguntas ou invadir a minha tristeza. Ele ficaria ali comigo o tempo que fosse necessário pra me convencer de que as coisas não eram tão ruins assim. Além do mais, de repente já me parecia óbvio que ele também apreciava a minha companhia. A sua lealdade canina era tocante.

Foi nesse mesmo dia que eu me apaixonei pelo doom metal do My Dying Bride, que até então eu odiava. Mais tarde, viria a considerar (e continuo considerando até hoje) a banda como elemento essencial na minha trajetória musical e pessoal. E sempre que eu ouvia algum de seus discos, me lembrava dele, do meu amigo, e desse tal dia de tristeza e alívio.

É por isso que eu dedico a ele - que realmente se foi hoje de manhã - a música Two winters only, da obra-prima The angel and the dark river.

Pra quem o conheceu, em particular nos seus anos de juventude, pode parecer um absurdo ligá-lo a algo tão sombrio e soturno. Afinal, ele era jovial, eufórico. Ele era uma presença quase sempre positiva e animadora. Nunca se viu alguém tão dócil e inofensivo quanto ele.

Mas... nos últimos anos, em que seu fim se aproximava a olhos vistos e em que seu corpo começava a se deteriorar de maneira irreversível, ele parecia ter adotado uma postura mais passiva e resignada. Seu brilho nos olhos esmaeceu bastante com a chegada de um outro indivíduo com quem ele não se dava à nossa casa - e nunca mais voltou a surgir totalmente. Nem mesmo quando era paparicado com seus mimos favoritos, a vitalidade de outros tempos ameaçava aparecer.

Alguns dizem até que ele teria desistido de viver. Não que isso tenha saído da sua boca - quem é que admite uma coisa dessas? - mas é uma teoria aceitável. E não terá sido esse o motivo de sua morte anunciada?

É por isso que - além da minha história pessoal ligando My Dying Bride a ele - faz sentido sim a escolha da música. É preciso encarar o lado triste da sua morte pra se lembrar que ela é triste só porque houve algo de bom. E que, no meu caso, esse algo bom começou a acontecer por causa de um momento ruim. Assim como todas outras coisas boas e ruins de todos os tempos.

Um trechinho da letra fica aqui em forma de homenagem ao velhinho:

What is it you hope for, even though you are dying?
And even though life is closing your tiny eyes
Why did I leave them all?
I should be with them to die in the same place
The pain I think, should go on forever
For always

Terá ele pensado nisso antes do último suspiro? Provavelmente não né... mas quem sabe?

Valeu, 'sortudo'. Foram bons treze anos.

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