Se não me engano, foi no busão da excursão pra devastação que foi o Iced Earth em São Paulo que eu recebi a notícia de que era possível que rolasse o show do Marduk aqui no Rio (inicialmente a banda - mais uma vez - viria ao Brasil e não passaria na cidade maravilhosa). Tudo bem, não que eu seja assim um grandessíssimo fã dos suecos, mas porra!, é o tipo de coisa que não dá pra deixar passar. A princípio, parece que a coisa ia rolar no cenário apropriadamente apocalíptico do Clube Recreativo Caxiense, palco daquele imortal show do Mayhem, mas acabou que o ponto foi transferido pro muito mais bem localizado Teatro Odisseia. Que, por sua vez, recebeu o Municipal Waste uns meses atrás (e eu não pude ir! merda!).
O Marduk foi uma banda que eu conheci razoavelmente cedo nas minhas explorações metálicas mais extremas. Nunca me esquecerei da primeira música da banda que eu ouvi, na coletânea World domination II: Darkness it shall be, uma verdadeira demonstração de caos sonoro (ainda mais pra um muleque de 17 anos), com um sinistro bumbo duplo incessante durante os quase cinco minutos de duração. Apesar de admirar a propensão para destruição dos caras, não era propriamente algo que me cativava na época, então meu contato com a banda parou numas ouvidas rápidas no Nightwing (Slay the nazarene! muito foda!) e no clássico imeditado Panzer division Marduk nos tempos dos seus respectivos lançamentos.De qualquer jeito, mais ou menos como aconteceu com o Mayhem, a possibilidade de ver um show dos caras pertinho de casa era irresistível. Não tinha como não descambar pra Lapa em pleno domingão, último dia de férias. O problema é que a porra do Teatro Odisseia não entende merda nenhuma de show (muito menos de metal) e divulga uns horários de início completamente esdrúxulos (cinco horas da tarde?!? foi por essas - e outras - que eu perdi o Municipal Waste!). Resultado: cheguei lá e ainda rolava a primeira banda de abertura. E nem sinal de conhecidos, apesar de a vizinhança estar cheia de cabeludos vestindo camisas pretas.
(isso porque ali do lado, na Fundição, estava pra começar o show do Epica... cara, dois shows de metal no Rio no mesmo dia já é demais, mas praticamente no mesmo quarteirão parece piada! ainda bem que eu não gosto desses góticos safados com mulherzinha cantando, senão provavelmente ficaria puto)
Bom, o fato é que eu tive que ficar um tempão zanzando por lá sem ter o que fazer, até finalmente encontrar umas pessoas e, depois de enrolar um pouco sempre com aquela latinha de suco de cevada à mão, entrei pra ver o que era um show do Marduk. A casa já estava cheia (sempre bom!) e meu timing se demonstrou bastante justo, já que, depois de entornar mais um choppinho camarada, começou a emanar uma musiquinha metida a assustadora das caixas de som...
Pois bem, os caras subiram no palco e pá! Blast beats ensandecidos, riffs gélidos e vocais rasgados começaram a soar pela casa, mais acostumada a sambinhas e pop/rockinhos indie-alternativos. Lá de trás, onde eu estava (estrategicamente posicionado ao lado do bar), já dava pra ver os primeiros movimentos de uma animada rodinha. Música legal, ok, mas porra, podia ser qualquer uma do Panzer division (que eu tinha passado a semana anterior escutando em preparação psicológica). O problema do Marduk é que eles se fizeram (principalmente nesse disco) com a imagem de 'banda mais porradeira do black metal', só que a desgraça deles fica nesse rame-rame de bateria repetitiva com uns riffs que até são bacanas, mas todos muito iguais aos que vieram antes.Só pra contrariar meu pensamento, os caras atacaram na sequência com uma música que tinha um riff diferente daquele clima tátátátátátátátátátá. A tal música (que depois eu fui ver e se chamava On darkened wings, do disco Those of the unlight) deu uma quebrada e me fez imaginar se veríamos alguma variação no repertório. Tudo bem, ponto pra eles. Na sequência, a faixa Panzer division Marduk, um verdadeiro clássico, resgatou o clima do início, que dali em diante se manteve por 90% da noite. Pra se ter uma noção da coisa, essa foi a única música que eu reconheci em todo o show! Não que eu conhecesse grande parte do repertório, mas tudo bem.
A essa altura, o meu 'medo' em relação aos shows de black metal kult da vida se confirmava: o que fazer exatamente com seu corpo enquanto tocam aquelas músicas esporrentas e monolíticas? Não é um estilo de música, digamos, muito animado que faça você bater cabeça, cantar a plenos pulmões ou erguer seus punhos no ar. No fim das contas, o blackzão cru é muito contemplativo pro ambiente ao vivo... a menos que você tenha coragem de ir pra roda. E, inspirado pelo fim da clássica Panzer division, foi o que eu fiz.
Eu tenho que confessar que estava com um certo receio de entrar na roda. Depois do que eu vi (e senti) no show do Mayhem, não dava pra não ter um pé atras. Por outro lado, o clima dessa vez parecia bem mais inofensivo, mais sóbrio, mais 'correto'. Tudo bem, os caras podem ter escrito músicas com títulos como Fistfucking god's planet e Christraping black metal (essa é foda, por sinal!), e lançado aquele lendário EP Fuck me Jesus, mas no fim das contas tudo parece um pouco pensado demais, calculado demais, sem a espontaneidade que dá o caráter assustador e monstruoso às bandas verdadeiramente ameaçadoras.
E a roda, no fim das contas, era um retrato perfeito disso. Fora um babaca que ficava na beira da roda literalmente descontando suas frustrações nas costas dos outros, o pessoal estava totalmente tranquilo, ajudando quem caía, agitando com vontade, mas sempre no limite do aceitável. Claro que a roda era divertida e empolgada, mas era inevitável a sensação de surpresa por aquilo ser um tanto inofensivo demais. A música que tocava era desgraçada, o que incitava alguns movimentos mais bruscos, mas nada que fosse verdadeiramente violento. Igualzinho à banda que estava em cima do palco.
Os caras do Marduk, por sinal, até que mandam bem ao vivo. O som estava surpreendentemente limpo (o que pode ter ajudado no clima 'black metal família' da coisa toda) e dava pra ver/ouvir que os caras seguravam bem as pontas. Apesar do espaço limitadíssimo no palco, eles agitavam bastante, o frontman Mortuus comandava os presentes com algum carisma e o guitarrista e líder Morgan Håkansson era tranquilamente a figura mais cativante no palco. Pouco se viu do baterista Lars Broddesson, que tocava encoberto pelos seus companheiros e o baixista Magnus "Devo" Andersson era a figura mais estranha, já que parecia quase feliz tocando toda aquela desgraceira.
Só que a natureza repetitiva das músicas, aliada à falta de, digamos, mobilidade proporcionada pelo black metal, acabaram deixando o show um pouco cansativo. Não é à toa que eu parei pra tirar fotos. Pra se ter ideia, mais pro fim da noite os malucos meteram a mais-que-clássica Baptism by fire, que deveria ser evidentemente um dos destaques da noite, e eu nem reconheci ela, de tanto que uma música parecia apenas uma extensão da anterior (a essa hora eu já tinha abandonado a roda e tinha perdido parte do interesse pelo show em si).
Só de sacanagem com a minha cara, o Marduk tocou na sequência uma música que eu não conhecia, mas que foi tranquilamente a mais foda da noite: Wolves, com um riff meio-punk, lembrando as origens cruas do black metal norueguês com grande estilo - e rendendo a roda mais aloprada do show. Provavelmente não por coincidência, essa faixa também está no Those of the unlight. Algo me diz que tenho que ouvir esse CD!
Depois dessa, os caras saíram do palco... e, infelizmente, voltaram pra tocar mais uma música que, pros meus ouvidos, poderia ser qualquer outra que eles tocaram na noite. Como final, foi meio anticlimático, seria bem melhor ter terminado com a anterior. Ou com as já citadas, nunca esquecidas, Darkness it shall be e Slay the nazarene. Bom, não se pode ganhar todas.
Saindo do Teatro Odisseia, minha sensação em relação ao show era conflitante. Por um lado, foi obviamente legal de ter ido lá. A roda foi boa, algumas músicas chamaram a atenção (Those of the unlight!), os caras mandam razoavelmente bem em cima do palco e foi legal testemunhar um show de metal desgraçado, como quase nunca rola aqui no Rio. Além do mais, era perto de casa e o ingresso não era exatamente caro.
Mas porra. Pra quem esperava ver algo verdadeiramente infernal e desgraçado, não tem como não ficar aquela pontinha de decepção de ficar metade do show na roda e não ter levado nem um mísero roxinho pra casa...
Setlist fora de ordem: Still fucking dead (here's no peace), Wolves, On darkened wings, Materialized in stone, Beyond the grace of god, Panzer division Marduk, Baptism by fire, Azrael, With Satan and victorious weapons, Throne of rats, Steel inferno, The levelling dust, Into utter madness, Phosphorous redeemer, To redirect perdition.

1 comentários:
Então quer dizer que a rodinha foi boa, né? Bom saber que vc gosta de apanhar! Hahaha...
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