Eu tava viajando de férias quando parei em um cyber café e pensei 'deixa eu olhar as novidades do metal' e estava lá: o Dio morreu!
Porra, o Dio! O cara que imortalizou os chifrinhos do demo como símbolo-mor do metal, uma das vozes mais perfeitas da história do gênero, um dos frontmen mais feiosos e baixinhos de todos os tempos. Que vacilo federal.
(além disso, como se pode ver acima, o cara um nerd de marca maior... ele é o grande fundador do metal nerd!)Tudo bem que isso não tenha sido exatamente a grande surpresa do ano, já que o cara vinha enfrentando um câncer de estômago há uns meses (além disso, ele não era exatamente um rapaz na flor da idade, com seus 67 anos - o cara era mais velho que a minha mãe e cantava metal! quão foda é isso?). Claro que todo mundo tava torcendo pelo cara, mas não dá pra dizer que a morte dele tenha sido totalmente inesperada.
Pra mim, o mais estranho da ida do cara pro além é que, mesmo que eu não possa dizer que eu tenha uma relação muito longa e/ou profunda com a música dele, eu não consegui deixar de ficar boladão e mandar emails/comentar na hora com quem estivesse online no gtalk.
(o cara era tão metal que, em vez de dar um tchauzinho, ele se despediu do mundo material com um moloch!)Quando eu comecei a ouvir rock pesado e metal, eu não era exatamente um fã das bandas mais antigas, tipo anos 70, Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple e essas porras (blasfêmia!). Na verdade, à exceção do Judas, eu achava isso tudo meio chato - meu negócio era metalzão anos 80. Por isso, durante muitos anos eu nunca prestei muita atenção no Dio. Até hoje não dá pra dizer que eu conheça a carreira do maluco: nunca ouvi Elf, de Rainbow só conheço umas três ou quatro músicas (heresia!) e só fui ouvir Sabbath e a carreira solo do cara com calma recentemente.
Meu primeiro contato com ele foi ouvindo o The last in line, que aliás é um belo disco (e meu preferido da fase solo) - de cara, a tradicional dobradinha abertura-agitada We rock e mais-trabalhada-com-introdução-acústica faixa-título me cativaram. O pior é que, por incrível que possa parecer pra qualquer um com um mínimo de noção das coisas, na época a voz estupidamente foda do cara não me chamou muito a atenção! Vai entender. E quando meus amigos começaram a falar que o Holy diver era melhor que cerveja gelada eu ouvi, não achei nada de mais e esqueci o Dio de vez (isso eu credito em parte à Rainbow in the dark, que eu até hoje acho uma música meio mala e superestimada pracaceta).
Por essas e outras, eu não fui a nenhum dos inúmeros shows que o cara fez aqui no Brasil (e no Rio!) ao longo desses anos. Quão idiota eu sou?
(Dio diz: você é um verdadeiro manézão!)O que me fez repensar minha posição desinteressada em relação ao baixinho mais emblemático do metal foi o RYM: fui olhar umas recomendações de discos por lá e, de uma tacada só, tinha Dio e Black Sabbath na lista. E aí eu decidir dar início à longa (e, em alguns momentos, ingrata) missão de ouvir a discografia inteira das duas bandas.
Nessa viagem, ouvir o Heaven and hell inteiro pela primeira vez foi uma verdadeira revelação. Caralho! Que CD estralhaçador de ideias adolescentes idiotas como nunca antes houve! Um clássico absoluto de metal, melhor disco da banda tranquilamente pra mim. Claro que, em se tratando de Black Sabbath, a gente nunca pode desconsiderar a fodeza inatingível dos riffs do Tony Iommi, mas grande parte do encantamento do álbum está na voz do Dio. O maluco cantando a faixa-título é um daqueles momentos eternos do metal que justificam todas as coisas idiotas do gênero.
(o Mob rules também é bom... mas, porra!, o Heaven and hell é por demais arregaçador)A parte da carreira solo foi mais complicada, já que ali só se salvam mesmo os dois primeiros discos. Sim, o Holy diver é muito bom e o The last in line tão empolgante quanto eu lembrava dos tempos remotos. Mas o resto (pode colocar aí junto o Dehumanizer, puta discozinho superestimado da porra)... difícil de engolir. De qualquer jeito, é aquela velha história: você lembra no maluco cantando nos tempos áureos e já basta pra desculpar os erros da estrada da vida.
Como todo mundo sabe, mais recentemente o cara voltou a juntar forças com o pessoal do Sabbath, adotando o nome mais-que-óbvio Heaven and Hell. Pra justificar os shows, eles lançaram um disco fraquinho, fraquinho chamado The devil you know.
Mais uma ótima oportunidade pra eu demonstrar a falta de noção e a burrice eterna implícitas à minha pessoa, já que a banda veio no Brasil/Rio pra fazer shows... e eu não fui. E agora obviamente nunca vou poder testemunhar o Dio ao vivo (dizem por aí que o cara era incrivelmente fodaço no palco, mas eu nunca saberei ao certo).
O fato é que o maluco é uma lenda - e pra mim já basta ter cantando tão fodamente no Heaven and hell pra sustentar essa reputação.O mais perto que eu cheguei de alguma sensação de 'proximidade' com o Dio foi vendo aquele documentário manjadão Metal - a headbanger's journey, em que ele dá várias entrevistas e explica o sentido do chifrinho (segundo ele, não tem nada a ver com o tranca-rua; é pra espantar o mau olhado ou coisa do gênero). Ali, ele parecia sustentar os inúmeros depoimentos que rolaram nos útlimos dias vindos de músicos consagrados, de que era um cara gente finíssima - pra além da sua importância no metal, como vocalista, músico e, talvez mais importante, um dos criadores daquilo que se entende por heavy metal hoje.

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